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Minha filha mais velha começou a falar as primeiras palavras aos 9 meses de idade e com um ano falava várias palavras. Seu irmão, nascido 3 anos depois, recebeu apelido de “mudinho” e, apesar do comportamento normal nas demais áreas, só começou a pronunciar as primeiras palavras poucos meses antes de completar 2 anos de idade. A verdade é que por muito tempo ele só falava a palavra “não”. Assim, sua irmã adorava faze-lo de bobo com perguntas do tipo. “Daniel, você é bonito?”. “Não!”. Daniel, você é legal? – “Não”. E por ai vai… Mas fora das brincadeiras, é claro que aquilo nos preocupava, com os receios que todos os pais têm com o atraso da fala de seus filhos, embora como médico eu estava atento aos eventuais sinais de alerta.

Para muitos pais não ligados à área médica e de linguagem isso não é tão evidente e com esse objetivo escrevo o artigo de hoje.

O DESENVOLVIMENTO NORMAL

Quando a analisamos fala e linguagem, como outros aspectos do desenvolvimento da criança, a variabilidade no tempo e no desenvolvimento é muito grande. Entretanto, não podemos resumir o tema num conceito como “tem que estar falando aos X anos”, pois a coisa é bem mais complexa. Para pais, professores, pediatras e todos os que acompanham as crianças o mais importante é estarem atentos aos possíveis sinais de alerta.

Existem várias tabelas que listam as capacidades que espera-se que a criança já tenha adquirido em cada idade. Apesar de ajudarem a guiar os pais, muitas vezes elas acabam confundindo mais, pois nem sempre é fácil saber o que fazer quando uma dessas capacidades parece não ter sido adquirida. Isso pra não falar nos casos que um dos pais acha que a criança é uma “tagarela” e o outro discorda, dizendo que ele “não fala nada”.

FALA X LINGUAGEM

Fala e linguagem são coisas diferentes. Fala é o ato de se expressar através das palavras produzidas pela articulação dos lábios, da língua, e das demais estruturas da garganta, além do papel da vibração das cordas vocais. Já a linguagem tem um conceito bem mais amplo e inclui todas as formas de se expressar e de captar as informações que tenham sentido comunicativo. Assim, para uma boa linguagem, além de falar adequadamente é importante ouvir bem, enxergar e ter a inteligência necessária para se comunicar e se exprimir, seja através da fala ou  não.

OS SINAIS DE ALERTA

Sinais de alerta são aqueles que devem servir de motivo para se procurar ajuda especializada junto a médicos otorrinolaringologistas, foniatras, pediatras, neurologista pediátricos e fonoaudiólogos. São eles:

Em qualquer idade:

  • Crianças que não reagem aos sons ou que não balbuciam ou produzem sons com a voz.

Entre 1 e 2 anos de idade:

  • Dificuldade de compreender frases ou solicitações verbais
  • Não tentar imitar sons ou palavras
  • Preferir gestos do que a voz para se comunicar

Após os 2 anos:

  • Não produzir palavras ou frases espontaneamente
  • Repetir palavras sem sentido para a comunicação
  • Tom de voz anormal ou anasalado
  • Dificuldade de compreender o que a criança diz na maior parte das vezes em que fala.

CAUSAS 

Causas possíveis do atraso no desenvolvimento da fala, quando não é apenas uma variação normal de criança para criança.

  • Alterações da língua (freio de língua curto)
  • Alterações neurológicas que afetem a cognição (aprendizado, inteligência, memória).
  • Surdez de origem genética ou oriunda de infecções crônicas dos ouvidos.
  • Pouca estimulação das crianças pelos pais e demais adultos que cuidam. As crianças aprendem a falar ouvindo. Muitas vezes a criança pode ter um atraso na fala mesmo havendo audição e cognição perfeitas, apenas por serem pouco estimuladas verbalmente pelos pais com historinhas, conversas e demais interações interações orais que devem fazer parte do dia a dia.