Apneia do Sono em Crianças

A apneia do sono acomete 5 % das crianças e seu sintoma mais comum é o ronco frequente. Já compartilhei aqui os achados de diversos estudos relacionando o ronco e a síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) em crianças; demonstrando o risco aumentado de alterações do humor, alterações cognitivas e mau desempenho escolar. Pesquisas em modelos animais já comprovaram a morte neuronal em várias áreas do córtex, secundária à hipóxia e aos micro-despertares durante o sono, típicos da apneia do sono.

O Estudo de Chicago

No dia 17 deste mês, pesquisadores da Universidade de Chicago publicaram os resultados de um estudo que realizou uma abordagem inédita sobre as alterações cerebrais nas crianças com apneia do sono. O artigo foi publicado na Scientific Reports, da importante revista Nature.

Dezesseis crianças que roncavam durante o sono foram selecionadas e submetidas à exames de polissonografia e ressonância nuclear magnética do crânio, além de testes neuropsicológicos para avaliação cognitiva. As imagens das ressonâncias foram comparadas com às do grupo controle: crianças que não roncavam e não apresentavam apneia do sono nos exames polissonográficos.

Ficou evidenciada uma redução importante e extensa de volume no córtex cerebral das crianças com apneia do sono (áreas demonstradas na figura), em comparação às crianças do grupo controle. A redução de substância cinzenta aconteceu nos córtices do lobo frontal, pre-frontal, parietal, temporal e algumas regiões do tronco cerebral.

Tratando a Apneia para Prevenir os Prejuízos

Apesar da correlação entre apneia do sono e a redução do volume cortical em crianças ter ficado clara, o estudo de Chicago não pode responder se os achados se devem a um atraso no desenvolvimento cerebral dessas crianças ou à atrofia cerebral secundária à apneia. De uma forma ou de outra, fica evidente a necessidade de atenção à saúde neurológica das crianças que roncam e apresentam apneia.

Estudos anteriores já comprovaram a correlação entre apneia do sono e o mal desempenho escolar, no humor das crianças e também foram capazes de demonstrar a melhora desses parâmetros após o tratamento da apneia.

Outros estudos usando a ressonância magnética já demonstraram que existe uma correlação entre o volume da substância cinzenta cerebral e o quociente de inteligencia (QI).

Os dados da publicação da Scientific Reports dessa semana, somados ao conhecimento adquirido até aqui, reforçam a necessidade de identificação e tratamento o mais rápido possível das crianças com apneia do sono. Mais do que nunca está claro que elas estão em sério risco de danos cognitivos que poderão impactar definitivamente o desenvolvimento de suas potencialidades.

Diante do quadro de uma criança que ronca, discuta com o pediatra a necessidade de envia-la ao otorrinolaringologista, já que a hipertrofia de amígdalas e adenoides é uma das principais causas da apneia.

 

Referência:

Philby, M. F. et al. Reduced Regional Grey Matter Volumes in Pediatric Obstructive Sleep Apnea. Sci. Rep. 7, 44566; doi: 10.1038/srep44566 (2017)