Segundo lei federal de 2008, dia 26 de setembro é o Dia Nacional do Surdo. A data coincide com a fundação do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), há 158 anos. Durante esse um século e meio, a instituição foi referência na educação de surdos e no ensino da língua de sinais. Na maior parte desse tempo o INES prestou um serviço inestimável, num tempo em que não existiam aparelhos auditivos, nem havia a possibilidade de recuperar cirurgicamente nenhum tipo de perda auditiva. Datas como essas, assim como os já conhecidos meses de todas as cores, seriam situações ótimas para levar informação à população, diminuir preconceitos, pressionar governos e instituições a adotar condutas preventivas e de acessibilidade. São chances de favorecer a integração de todos os tipos de deficientes na sociedade. Entretanto, como médico atuando com a reabilitação auditiva, não é isso que vejo nesse dia do Surdo. Muito pelo contrário. A maior parte dos posts e anúncios do dia do surdo que pipocam pelas redes sociais nos “ensinam” que é preciso ter intérprete de LIBRAS em todas as escolas, em todos os lugares, e ponto final! Para a população, fica mais uma vez a mensagem oficial de que surdo é aquele que usa LIBRAS. Trata-se de uma enorme campanha de desinformação que, defendendo uma justa causa, “esquece” de 90% do universo da surdez. Como os pontos a seguir:

Existe um surdo na sua família

Surdez é a diminuição da capacidade auditiva abaixo de níveis considerados normais. Classificamos a surdez em leve, moderada, severa e profunda. Portanto, ponto de vista médico, qualquer pessoa que precise de volumes mais altos para ouvir é surda e precisa de tratamento. 

Crianças com otites repetidas com frequência têm algum grau flutuante de surdez, que pode trazer dificuldades no desenvolvimento da fala e no aprendizado na escola. Graças à exposição excessiva ao barulho, a perda auditiva definitiva vem crescendo entre adolescentes e adultos. Entre os 20 e 40 anos de idade, a surdez acomete 15% das pessoas. Acima dos 70 anos, a prevalência pode chegar a 50%. Aproximadamente 2 recém nascidos em cada mil apresentam surdez profunda. Em resumo, a surdez é extremamente comum, em todas as idades.

A perda auditiva prejudica o cérebro 

Inúmeros estudos publicados nos últimos anos comprovam os danos ao funcionamento cerebral causados pela perda de audição. Mesmo níveis “pequenos” de surdez, se não tratados, aumentam a chance de se remodelarem as conexões neuronais ou mesmo a diminuição da massa cerebral, com maior risco de demências, como a doença de Alzheimer. A notícia boa é que a reabilitação da audição através de aparelhos auditivos ou implantes cocleares minimiza ou até mesmo elimina esses riscos.

Faça check-up da audição

Na pesquisa da perda auditiva, há exames adequados para todas as idades. O exame das otoemissões acústicas (teste da orelhinha) é obrigatória em todos os recém nascidos, mas infelizmente muitos bebês acabam não fazendo. Nas crianças maiores, um número crescente de pediatras e escolas solicitam um exame auditivo de rotina. Mas ainda falta todos os médicos clínicos ou pediatras incluírem a solicitação um check-up da audição em sua rotina. A audiometria é exame simples, rápido e sem riscos e é realizado em inúmeras clínicas de otorrinolaringologias e fonoaudiologia, na maiorias das cidades do país.

A audição é o único sentido humano que pode ser recuperado bionicamente

Nas últimas duas décadas, uma das maiores invenções tecnológicas da medicina se espalhou por boa parte do planeta: O Implante Coclear. Também conhecido como ouvido biônico, a tecnologia do implante coclear (IC) substitui o funcionamento da cóclea humana. Ele permite que pessoas – antes condenadas ao silêncio – possam ouvir, falar e interagirem com o mundo sonoro em todas as suas facetas. Crianças hoje que nascem com surdez grave podem receber um IC nos primeiros anos de vida e assim desenvolverem a fala normalmente, lado a lado com as crianças ouvintes e sem necessidade de escolas especiais ou qualquer tipo de intérprete.

Estamos a caminho da superaudição pela tecnologia

Imagine a cena: Um casal sentado frente a frente num restaurante barulhento. Ela é surda e usa implante coclear, ele ouve normalmente e não usa nada. Ele tem microfone sem fio preso na lapela e que transmite sua voz diretamente para os implantes dela. Assim ela ouve tranquilamente o que ele diz, pois seus implantes também são dotados de uma tecnologia que filtra o excesso de ruído do restaurante.  Enquanto isso, ele que ouve “normalmente” não consegue entender quase nada do que ela fala no meio de tanto barulho.

Essa e outras situações vão mostrando que os deficientes auditivos que usam aparelhos auditivos e implantes cocleares podem às vezes ter uma experiência auditiva melhor do que as pessoas que não usam nada. Grandes empresas de tecnologia já se deram conta disso e começam a desenvolver fones de ouvido com tecnologias semelhantes para todos. Em breve, todos poderemos ter algo pendurado ou preso nas orelhas e que nos fará ouvir melhor. 

LIBRAS é pra quem não pode (ou não quer) reabilitar sua audição

A língua brasileira de sinais (LIBRAS) é a segunda língua oficial do Brasil desde 2002. Trata-se de uma grande conquista para os surdos que dependem dela para se comunicar. Em escolas e faculdades, é obrigatória a presença de um intérprete nas salas de aula com surdos sinalizados. Infelizmente, como tantas outras leis brasileiras, essa também nem sempre é cumprida. Os surdos sinalizados também fazem parte de um universo maior, dotado de uma cultura própria, com ricas manifestações artísticas na pintura, teatro e poesia. O universo dos surdos sinalizados é fonte de orgulho e autoafirmação pra muitos deles. No mundo, os usuários das diferentes línguas de sinais, cujo maior berço foi a França, reúne milhões de pessoas. Entretanto, é preciso dizer que mesmo nos países mais avançados e com maior grau de acessibilidade para surdos, aqueles que dependem das línguas de sinais para se comunicar enfrentam muitas dificuldades. Nas nossas repartições públicas, nos meios de transporte, em empresas privadas e no comércio é a língua falada e escrita a principal ferramenta de comunicação.

Nós médicos, fonoaudiólogos e professores não podemos negligenciar o irrefreável avanço da reabilitação auditiva. Hoje em dia são raros os casos de surdez em que a pessoa, com ajuda de aparelhos auditivos ou implantes auditivos, não possa ser reabilitada para uso da linguagem oral. Diante das tecnologias que permitem uma criança nascida surda passar a ouvir, também vem se tornando raro que os pais optem por educar seus filhos com LIBRAS, em detrimento da sua adaptação integral à sociedade.

Falta explicar melhor a população do que se trata o Dia Nacional do Surdo. Para o senso comum e para a medicina, surdo é quem não ouve direito. Se é pra dar suporte aos surdos que usam LIBRAS, que se faça o Dia Nacional da LIBRAS, o Dia da Cultura Surda, ou o Dia do Surdo Sinalizado. Já o dia Nacional de Prevenção e Combate a Surdez, que acontece em 10 de novembro faz mais sentido, já que passa uma mensagem clara do porquê ele existe.