Olfato e paladar (juntamente com o tato) são sentidos frequentemente menosprezados diante dos seus primos mais importantes: audição e visão. Embora poder enxergar e ouvir nos confira vantagens maiores do que a percepção de odores e sabores, é incorreto os deixarmos esses dois sentidos esquecidos.

Em 2015 abordei o mito dos 5 sentidos num post chamado sexto sentido. Sabemos que o conceito que vem de Aristóteles, de que temos apenas 5 sentidos, é falacioso. Mas enfim o conceito pegou, e quando pega, sabe como é… Vira verdade e pronto.

Alguns dados nada banais mostram com clareza que existe uma relação importante entre saúde geral e olfato.  Em grande parte dos casos as alterações do olfato são causadas por problemas mais simples da via aérea, como desvios de septo, polipose nasal, rinite alérgica ou sinusites. Entretanto, num número menor de vezes, a diminuição do olfato e do paladar pode estar relacionada a doenças neurológicas degenerativas, tumores do sistema nervoso central ou tramatismos cranianos.

Definindo as Alterações do Olfato e Paladar

As alterações do olfato podem ser quantitativas ou qualitativas. As alterações qualitativas referem-se a “quanto” se sente do olfato. Assim, chamamos de anosmia a perda total do olfato. Curiosamente (e bem mais raramente), há as anosmias específicas, que significa a perda da capacidade de sentir um odor específico. Há ainda o quadro de hiposmia, ou perda parcial do olfato, bastante frequente no dia-a-dia em nossos consultórios. E por fim existe a rara hiperosmia (sensibilidade exagerada do olfato), que pode ser causada por inalação de vapores tóxicos ou na enxaqueca.

Já as alterações qualitativas do olfato podem ser a fantosmia, quando a pessoa tem a percepção de um cheiro que não existe.  Já a parosmia refere-se a percepção alterada do olfato. Nesta situação, o odor de uma flor por exemplo, pode ser sentido como cheiro diferente. Na maiorias das vezes, pacientes com fantosmia e parosmia tem a percepção de cheiros desagradáveis. As alterações qualitativas do olfato podem ser causadas por infecções virais, traumatismos cranianos ou estarem relacionadas à sintomas depressivos.

alterações do paladar podem ser classificadas como:

  • Ageusia: Perda completa do paladar, bastante rara.
  • Hipogeusia: Diminuição do paladar
  • Hipergeusia: Hipersensibilidade gustativa
  • Disgeusia: É a mais comum.  Trata-se da alteração do paladar, normalmente com sensação “metálica” ou de “amargor”.

As queixas do paladar são bem menos frequente do que do olfato e podem ser causadas por: Trauma craniano, infecções das vias aéreas, exposição à substâncias tóxicas, secundárias à cirurgias do ouvido ou procedimentos dentários, medicamentos (quadro abaixo), glossodinea (síndrome da ardência bucal).  Mais raramente, alucinações gustativas podem estar relacionadas à quadros esquizofrênicos ou de epilepsia. Uma disgeusia adocicada pode também representar o primeiro sintoma de tumores do pulmão.

Olfato: Marcador de Boa Saúde

Aproximadamente 5% da população apresenta alguma alteração do olfato. Assim como para a audição e a visão, essas alterações aumentam com o envelhecimento. Acima dos 50 anos, um quarto das pessoas têm algum grau de dificuldade com o olfato. Esse aumento pode ser causado pelo envelhecimento, mas também pelo maior tempo submetidos à infecções, traumas, medicamentos e outros agentes tóxicos. Entretanto, embora a presbiosmia (perda do olfato com a idade) seja comum, ela não pode ser considerada inevitável, mas antes um marcador da saúde geral. Paciente que “envelhecem bem” e sem tomar medicações costumam não apresentar alterações do olfato.

Em 2010, pesquisadores de Chicago, liderados por Robert Wilson, divulgaram num artigo os resultados de de um estudo com 1162 indivíduos, com idade média de 79 anos. Eles foram acompanhados por 4 anos. Neste período, 27,6% dos participantes morreram. Vários fatores foram então analisados e correlacionados. Além de fatores como sexo, idade, doenças psiquiátricas e outros dados, também se analisou a função olfatória como fator de risco. Os pacientes que desempenharam pior na medida do olfato no início do estudo tiveram 36% mais chances de morrer no período analisado.

Além disso é sabido que doenças degenerativas do sistema nervoso podem estar relacionada a diminuição do olfato. No caso da doença de Parkinson e também no Alzheimer, a perda do olfato é uma queixa importante e pode anteceder os demais sintomas em 4-6 anos!

Causas de Perda do Olfato

As condições que levam a piora do olfato com maior frequência são:

  • Trauma craniano: Por secção do nervo olfatório
  • Infecções virais: Por lesão das fibras do nervo olfatório
  • Polipose nasal e sinusite: Por inflamação da mucosa nasal e obstrução do fluxo aéreo
  • Envelhecimento e doenças neurológicas: Como Alzheimer e Parkingson
  • Medicamentos: (quadro ao lado)

Cuidando do Olfato e do Paladar

Embora o olfato e paladar sejam muito importantes para a qualidade de vida e a saúde em geral, sua avaliação clínica não é simples. Enquanto a audição e a visão podem ser mais facilmente avaliadas e quantificadas por exames simples no consultório, métodos de aferição do olfato e do paladar tende a ser complexos e imprecisos.

Além disso, quase não existem tratamentos específicos para as doenças isoladas do olfato e paladar. Assim, o foco deve ser no diagnóstico, identificando e eliminando os fatores causais. Essa busca passa por uma anamnese cuidadosa, com exame clínico e video-endoscópico da cavidade nasal.