Sabe aquelas crises de dor de cabeça e no rosto, acima ou ao redor dos olhos, latejantes e repetitivas? Pois bem, isso não é sinusite!

Médicos de todas as especialidades tem seus casos típicos e repetitivos, histórias que se repetem a cada semana nos consultórios e ambulatórios e essa é uma das nossas na otorrinolaringologia. Costuma acontecer assim: A pessoa sofre de dores de cabeça frequentes, em crises de variados tipos. Às vezes são dores que pulsam, noutras tem desconforto com o barulho ou com a luminosidade, o que a faz precisar descansar e se deitar para que fique melhore. Algumas das crises acabam levando-os à um serviço de emergência onde, num grande número de vezes, é solicitada uma radiografia de seios da face (um exame muito impreciso para o diagnóstico de sinusite!). Muitos acabam saindo de lá com o diagnóstico errado de sinusite e uma prescrição igualmente equivocada de antibióticos e analgésicos. Dois ou três meses depois a história se repete. Tome antibiótico outra vez… E é assim que, cansados de tratarem suas crises de “sinusite” e sofrerem com as de dores de cabeça, muitos acabam no consultório de um especialista, o otorrinolaringologista. Em geral nesse dia a sinusite muda de nome.

Num estudo muito interessante publicado 2004, Schreiber e colaboradores mostram o resultado de uma pesquisa feita após o anúncio num jornal americano de grande circulação oferecendo tratamento médico gratuito para pacientes com dor de cabeça e sinusite (no inglês o termo usado foi sinus headache). O objetivo era selecionar pessoas que acreditavam ter esse diagnóstico. Desta maneira reuniu-se um grupo de 100 pacientes. Todos foram examinados por neurologistas, que aplicaram o mesmo método clínico para diagnóstico de dores de cabeça e suas origens. O resultado mostrou que dos 100 pacientes, 86 tinham enxaqueca, 11 tinham outros tipos mais raros de dor de cabeça e apenas 3 tinham dores decorrentes de sinusites. 

Apesar de ser um estudo americano, nossa experiência mostra que a realidade brasileira não é muito distante desse cenário. Aqueles que apresentam episódios repetitivos de dor de cabeça devem evitar tratá-los em atendimentos em pronto socorros. Se forem dores associadas à obstrução nasal, secreção no nariz ou piora do olfato, procure um otorrinolaringologista, pois isso pode ser uma sinusite (leia mais sobre ela aqui). Mas caso esses sintomas estejam ausentes, o diagnóstico pode ser outro, como enxaqueca, cefaleia tensional ou cefaleia em salvas (essa também pode entupir o nariz). Há ainda outros  vários tipos de cefaleia. Nesses casos um neurologista poderá ajudar bastante.

REFERÊNCIAS

1. Headache Classification Subcommittee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 2nd ed. Cephalalgia. 2004;24(1 suppl):S8-S160.
2. Rosenfeld RM, Andes D, Bhattacharyya N, et al. Clinical practice guideline: adult sinusitis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2007;137(3 suppl):S1–S31.
3. Eross E, Dodick D, Eross M. The sinus, allergy and migraine study (SAMS). Headache. 2007;47:213-224.
4. Michel P, Henry P, Letenneur L, et al. Diagnostic screen for assessment of the IHS criteria for migraine by general practitioners. Cephalagia.1993;13(12suppl):S54-S59.
5. Detsky ME, McDonald DR, Baerlocher MO, et al. Does this patient with headache have a migraine or need neuroimaging? JAMA. 2006;296:1274-1283.
6. Schreiber CP, Hutchinson S, Webster CJ, et al. Prevalence of migraine in patients with a history of self-reported or physician-diagnosed “sinus” headache. Arch Intern Med. 2004;164:1769-1772.