De Lisboa – Terminou ontem o 13 European Symposium on Paediatric Cochlear Implant. No primeiro dia aconteceram os simpósios das marcas de implante, com 1:30h de duração cada um: Cochlear, Med-el, AB, e Oticon. E foi nessa ordem que se deram as apresentações, ordem que coincide com a participação de cada um no mercado global.

É natural que as apresentações nesse dia tenham um caráter mais promocional, com aulas e palavras calibradas pelos departamentos de marketing, ávidos por convencer o público de médicos e audiologistas que seus produtos são os melhores. Também são nesses eventos que as empresas aproveitam para apresentar novos modelos de IC, acessórios e funcionalidades.

Cochlear

A empresa australiana, líder de mercado e um das pioneiras na tecnologia dos implantes, não trouxe modelos novos para Lisboa, talvez pela proximidade com o simpósio da Alliance, que acontecerá no fim de julho em São Francisco.  Tudo indica que será por lá o anuncio do seu novo modelo de implante, o Nucleus 7.

Esse deverá trazer a tecnologia bluetooth, que permitirá pareá-lo diretamente a celulares, computadores e outros aparelhos, eliminando a necessidade de dispositivos intermediários (como o PhoneClip). A tecnologia também abre espaço para conectar o implante à internet através dos smartphones, permitindo atualizações e mesmo o mapeamento (programação) remoto.

Outro anúncio que passou desapercebido pela maior parte dos presentes foi o acordo celebrado entre a empresa e a Otoconsult, liderada pelo cirurgião belga Paul Govaerts. O negócio prevê o direito de uso e distribuição do software  FOX (Fitting do Outcomes eXperts), baseado em mecanismos de inteligência artificial. A proposta é otimizar e automatizar a realização dos mapeamentos, que hoje dependem de muita subjetividade e podem precisar de muitas consultas com o audiologista.

Não é um exercício tão difícil relacionar as duas novidades acima e imaginar que, em breve, veremos implantes cocleares com ajustes mais personalizados e conectados a internet. Os IC deixarão de ser apenas aparelhos para ouvir. É mais uma vez a Cochlear assumindo o pioneirismo que está no seu DNA.

MED-EL

A empresa austríaca também não trouxe um novo modelo de IC para Lisboa. Ao invés disso, anunciou o lançamento de um novo software de programação, o MAESTRO 7, que simplifica o funcionamento da versão anterior.

Apesar de já ser notícia antiga, a MED-EL manteve o tom forte para divulgar mais seu implante Synchrony, compatível com ressonância magnética até 3 T, exclusividade entre todos os fabricantes.

Sua maior novidade, oficialmente lançada num evento em Santiago há cerca de um mês, foi o ADHEAR. Trata-se de um sistema de condução óssea, para ser usado em indicações semelhantes aos já existentes BoneBridge, BAHA e Sophono. Sua grande novidade é que ele não precisa de ser implantado numa cirurgia e é colado atrás da orelha por um simples adesivo. Suas indicações também são mais restritas do que os demais modelos mencionados e sua real aplicação será testada ao longo do tempo.

Advanced Bionics (AB)

Após ter sido adquirida pelo grupo SONOVA em 2009, a AB vem se firmando como uma empresa detentora do mais completo portfólio de soluções auditivas, graças à parceria com a PHONAK, pertencente ao mesmo grupo. Após ter lançado em 2016 o primeiro aparelho auditivo que funciona em conjunto, lado a lado com o implante coclear, a AB deu esse ano um passo ainda mais ousado.

Eles acabam de anunciar o lançamento do Naida Link CROS. Trata-se de um pequeno aparelho transmissor para ser usado pelos seus usuários de implante coclear unilateral. A ideia é usar o novo dispositivo na orelha do lado não implantado, como um aparelho auditivo convencional. Dessa maneira, o CROS funciona como um simples transmissor de som para o implante coclear, permitindo que a pessoa ouça os sons vindos de todas as direções. A intenção é eliminar o chamado efeito-sombra, causado pela cabeça. Isso permite que a pessoa com surdez bilateral e usuária apenas de um IC não precise se preocupar tanto em que lado sentar numa mesa ou no carro, por exemplo.

O lançamento do sistema CROS para implantes, como o que já existe de aparelhos auditivos para pessoas que ouvem apenas com um ouvido, é uma aposta corajosa da AB, na medida em que a existência dessa opção poderia desestimular alguns pacientes a fazerem o implante bilateral.

Oticon Medical

O lançamento mais esperado e envolto em mistério veio da empresa com menor participação do mercado.  A Oticon Medical também foi a única a lançar um novo processador de som no evento de Lisboa. O Neuro Two é a segunda geração de processadores a ser lançada após a aquisição e consequente mudança de nome da empresa (de Neurelec para Oticon Medical).

O dispositivo apresenta um design extremamente atraente, com um finíssimo cabo unindo a antena ao processador. Segundo a empresa, a tecnologia aplicada na sua confecção, torna o cabo praticamente inquebrável. O novo processador também permite o uso em conjunto com um aparelho auditivo (da Oticon) na orelha contralateral, consolidando a tendência lançada pela AB em 2016.

A parte interna (o implante), conhecida como Neuro Zti é tão atraente quanto à externa. Ele é pequeno e dotado de dois parafusos que facilitam sua fixação.

Como todo modelo novo, terá que provar sua qualidade na vida real. Além disso, ainda não sabemos quando o mesmo chegará estará disponível no Brasil e no resto do mundo. Vamos acompanhar…

Preservação Auditiva

Assunto em voga há vários anos, a preservação auditiva se manteve presente em muitas aulas e mesas redondas do congresso de Lisboa. A tendência de se implantar pessoas com níveis cada vez maiores de audição residual vem direcionando pesquisadores e empresas a desenvolverem técnicas e dispositivos menos traumáticos para as estruturas cocleares.

Os resultados mais recentes no acompanhamento dos pacientes operados vêm demonstrando que muitos pacientes que tiveram sua audição residual preservada após a cirurgia podem perdê-la ao longo do tempo. Com base nessa observação, o conceito mais atual é de que usemos eletrodos finos e pouco traumáticos, porém que tenham boa cobertura coclear. Isso permite a reprogramação do implante caso o paciente venha a perder sua audição residual no futuro, sem a necessidade de uma nova cirurgia para trocar o implante.

Surdez Unilateral

Uma das novas fronteiras do implante coclear é a sua indicação na surdez unilateral. Existem um grande número de pessoas que escutam normalmente por uma das orelhas, mas são surdas do outro lado. Historicamente, a maioria dessas pessoas levam suas vidas sem nenhum tipo de tratamento, adaptando sua rotina. Muitos outros que buscam ajuda em nossos consultórios, acabam sendo bem tratados com aparelhos auditivos do tipo CROSS, que roteiam o som do ouvido surdo para o ouvido que ouve.  Outros são tratados com implantes de ancoragem óssea, como o BAHA.

Há poucos anos, alguns cirurgiões começaram a investigar a possibilidade de usar o implante coclear nessas situações. Considerando que o implante coclear seria a única opção para devolver a audição bilateral nos surdos unilaterais, essa intenção faz todo sentido. Principalmente se levarmos em conta os aspectos cerebrais da privação auditiva em um dos ouvidos. Já está demonstrado que a surdez unilateral leva a modificações na arquitetura das vias auditivas.

Entretanto ainda falta a evidência da boa relação custo-benefício do implante coclear na surdez unilateral. Não podemos esquecer que o implante é colocado através de uma cirurgia, com seus riscos, mesmo que pequenos. Além disso, o uso do IC necessita de dedicação do paciente, para se submeter os mapeamentos, trocar baterias e cuidar das eventuais falhas. Pessoas implantadas também têm limitações para realizar exames de ressonância magnética, tão importantes em algumas patologias.

Levando tudo isso em conta, ainda carecemos de evidências para que passemos a considerar a surdez unilateral uma indicação formal para o implante coclear.

Regeneração Auditiva

Recentemente li numa rede social um artigo que tratava da “morte dos smartphones”. O autor argumentava que em breve as telas acabariam e todo processamento de dados e de memória estaria integrado ao nosso corpo, nossa visão e audição, ao nosso cérebro.

A primeira coisa que me veio a mente nessa ocasião foi o possível fim dos implantes cocleares. Parece evidente que todo dispositivo eletrônico, por mais moderno e tecnológico que seja, está fadado a extinção e substituição por algo mais atual. Afinal, ciência e tecnologia não param!

Uma das maiores expectativas nesse ramo são as pesquisas que visam a cura da surdez. Apesar de esse ser o futuro, é pouco provável que ele se torne realidade nos próximos 10 ou 15 anos. Entretanto, alguns estudos apresentados aqui em Lisboa indicam que bem antes disso, veremos implantes cocleares adaptados para usar juntos com medicamentos que serão capazes de otimizar seu funcionamento.

BALANÇO FINAL

O nível científico do simpósio europeu deste ano ficou abaixo das suas últimas edições. É possível que a proximidade com o GICCA que ocorreu há um mês em Santiago e com o simpósio da Alliance que acontecerá nos EUA em julho próximo tenham contribuído para esvaziar o evento. Apesar disso, como em todo congresso o de Lisboa permitiu, aos que estiveram presentes, se manterem a par de todas as novidades do mundo do implante coclear.

E vamos para São Francisco… 🙂