Se falar sobre o momento atual do tratamento da surdez já é uma tarefa complexa,  imaginar o futuro do implante coclear pode parecer muita presunção. Entretanto, se seguirmos os passos do filósofo Heródoto, podemos tentar “analisar o passado, para compreender o presente e idealizar o futuro“.

Analisando o Passado

A ideia de estimular a cóclea doente com impulsos elétricos tem mais de 60 anos, e acabou se configurando uma lenta realidade graças a pesquisadores de vários países: Djourno e Eyriès, House, Doyle, Simmons e Urban até os anos 70. Após 1980, destaque para Clark (precursor da empresa Cochlear) e Hochmair (Med-el), principais nomes entre os pioneiros do implante coclear multicanal. De fato, a introdução dos implantes multicanais é um marco importante nessa história. Foi o início da era em que os pacientes passaram a ouvir e entender a fala com a audição biônica, o que não era possível com os implantes monocanais. Em 2013 Blake Wilson se juntou a Clark e Hochmair para receberem o prêmio Lasker, o mais importante do mundo científico, pelo trabalho dos 3 com os IC.

Entendendo o Presente

Nesse rumo chegamos a 2016. Estima-se quase 400 mil implantados no planeta, número que cresce mais rápido do que nunca. Os dias atuais são marcados pela constatação, estudo após estudo, de resultados surpreendentes. Foi assim que os IC’s passaram a ser indicados não somente para pacientes com surdez profunda em adultos. Atualmente, bebês menores do que um ano de idade e nascidos surdos recebem implantes cocleares, assim como idosos de 70, 80 ou 90 anos. Pacientes com surdez assimétrica ou mesmo com surdez em apenas um dos ouvidos vêm sendo implantados experimentalmente com resultados animadores.

Vislumbrando o Futuro do Implante Coclear

Vamos partir do panorama atual, seguindo as pegadas das linhas de pesquisa acadêmicas e da indústria. Assim, podemos imaginar que o futuro dos implantes cocleares passa por alguns ou todos os tópicos abaixo:

  • Assim como já existem em aparelhos auditivos e alguns IC’s, as estratégias de pré-processamento do sinal sonoro devem se desenvolver bastante. Os exemplos mais comuns  dessas estratégias são os filtros de ruído. Há muito espaço para que os sistemas eletrônicos dos IC’s sejam capazes de entregar para os usuários apenas os sons que lhes interessam na “cena auditiva” na qual estão, minimizando ou mesmo anulando os sons desnecessários e competitivos. Aliás, esse tipo de estratégia também vem sendo desenvolvida para as pessoas sem perda auditiva, incorporados aos modernos fones de ouvido ou “hearables“;
  • A melhora na tecnologia dos microfones dos IC’s;
  • A evolução no desenho dos eletrodos, associada a técnicas cirúrgicas mais precisas e delicadas, deverá diminuir o trauma sobre as estruturas internas da cóclea, com maior preservação da audição residual;
  • Embora nos IC’s atuais o número de canais de estimulação não costume a fazer diferença no resultado, o uso de tecnologia luminosa e o processo de miniaturização dos eletrodos deverá aumentar bastante o número de eletrodos no futuro, o que, aliado aos avanços na programação, deverá trazer melhor desempenho auditivo;
  • Desenvolvimento de implantes cada vez menores, que não precisam ficar pendurados na orelha, mais resistentes e a prova d´água;
  • Desenvolvimento de um aparelho totalmente implantável e portanto invisível, sem unidade externa. Os desafios quanto à durabilidade da bateria e qualidade do microfone ainda existem, mas as tecnologias disponíveis para solução desses problemas de forma satisfatória estão a caminho. Para quando? Isso ninguém sabe responder…

Por fim, não podemos esquecer das pesquisas que buscam curar a surdez. Experimentos com uso de terapia genética, células tronco e nanotecnologia vêm conseguindo progressos nesse sentido. Esses avanços poderão resultar na reversão de alguns tipos de surdez, eliminando a necessidade do uso de aparelhos auditivos e implantes cocleares nesses pacientes. Nesse futuro bem distante, seria o futuro dos implantes cocleares virarem peças de museu?