Funções executivas

O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL

Bem na frente da nossa cabeça, atrás da testa, sobre os olhos e o nariz, situa-se o lobo frontal do cérebro (foto de destaque). Um dos 4 pares de lobos cerebrais (junto os parietais, temporais e occipitais), o lobo frontal é nossa “diretoria”. É nele, especificamente no córtex pré-frontal, onde são executadas algumas das mais elaboradas funções cerebrais, aquelas que nos diferenciam dos outros animais: A Escolha de objetivos e prioridades, administração do tempo, análise de ideias, flexibilidade, planejamento, adequações frente às mudanças de condições externas e gerência das emoções.

Tais comportamentos dependem de mecanismos cerebrais conhecidos como funções executivas do cérebro, e podem ser divididos em 3 principais grupos:

  • A memória de trabalho que nos ajuda a lembrar e intercalar pequenas informações necessárias para levar uma ou mais tarefas adiante.
  • A flexibilidade mental que nos permite mudar nossa atenção de foco, frente à mudança de circunstâncias..
  • O auto-controle capaz de nos manter concentrados e algo, impedindo atitudes e reações impulsivas à todo momento.

O bom nível das funções executivas está relacionado com melhores desempenhos escolar, social e emocional (Pureza et al, 2105).

ORIGEM DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS E SUAS ALTERAÇÕES

Os recém-nascidos nascem com seus cérebros prontos para desenvolver as funções executivas. Entretanto, esse desenvolvimento, assim como os das demais habilidades cerebrais, depende de estímulos externos. São esses estímulos que induzem plasticidade cerebral à formas as conexões necessárias.

Embora ainda não se compreenda o que faz as pessoas terem funções executivas mais ou menos desenvolvidas, alguns fatores já reconhecidos podem influenciar bastante. São eles:

  • Hereditariedade: A mesma genética que traz características e aptidões distintas a cada pessoa, também predispõe a graus variados de habilidades executivas.
  • Déficits Cerebrais: Tumores, doenças vasculares e traumas cranianos podem lesar as áreas cerebrais responsáveis pelas funções executivas.
  • Transtornos e doenças: A dislexia, o déficit de atenção (TDAH) e também a privação auditiva decorrente da surdez têm sido apontado como fatores importantes.

A REABILITAÇÃO AUDITIVA E AS FUNÇÕES EXECUTIVAS

A surdez não pode ser vista apenas como uma privação de som. A falta de estímulos auditivos e de experiências envolvendo a linguagem oral desde o nascimento traz consequências na organização neural. Assim, ela afeta o desenvolvimento de capacidades cognitivas dependentes das experiencias auditivas e do processamento auditivo central. A dimensão do impacto da surdez sobre as funções executivas do cérebro ainda é desconhecido.

Alguns estudos mostraram que em crianças com surdez que receberam um implante coclear podem ter essas habilidades alteradas até muitos anos após o implante. Um estudo alemão com usuários das línguas de sinais mostrou um desempenho 4-5 vezes pior das funções executivas na crianças em escolas para surdos e 2-3 vezes pior naquelas estudando em escolas tradicionais, comparando-se com as crianças ouvintes da mesma idade.

O aprofundamento das pesquisas sobre as funções executivas do cérebro deverá ser cada vez mais importante para todos os envolvidos no tratamento da surdez. Assim, os diversos testes auditivos realizados atualmente deixarão de ser vistos como único parâmetro para avaliação de resultado, sendo necessário a introdução testes e terapias destinadas às funções executivas (Kronenberger et al., 2011).

Crianças implantadas e com bons resultados em testes auditivos podem apresentar outras dificuldades em tarefas cerebrais mais elaboradas. Num mundo de complexidade e competitividade crescentes, as habilidades executivas do cérebro são cruciais para o seu desenvolvimento emocional, social e profissional na vida adulta.

Isso reforça a necessidade de uma abordagem integral da criança com perda auditiva. Além da reabilitação auditiva mais precoce possível é fundamental a participação de equipes multidisciplinares – incluindo neuropsicólogos – que avaliem e otimizem todas as habilidades cognitivas da criança em reabilitação.