surdez súbita

Surdez súbita à esquerda

Há alguns anos atendi uma jovem paciente contando que teve uma briga com seu chefe no ambiente de trabalho e no meio daquela desagradável situação, sentiu seu ouvido direito “se fechar” e o início de um zumbido. Depois de um período de exames de tratamento ela melhorou bastante das suas queixas mas ainda assim, sua audição nunca mais foi a mesma deste lado.
Dentre todas as causas de perda auditiva, uma das mais traumáticas é a que chamamos de Surdez Súbita. O nome resume bem a situação que normalmente se apresenta, de alguém sem queixas prévias e que, subitamente, sente sua audição em um dos ouvidos piorar acompanhado ou não por algum zumbido ou tonteira. Existem várias causas implicadas na surdez subita mas muitos desses pacientes acabam sem um diagnóstico preciso. É raro que se trate de algo grave embora em cerca 10% dos casos a causa pode ser um tumor benigno do nervo auditivo conhecido como neuroma (ou schwannoma) do nervo acústico. Outras causas são genéticas, autoimunes, vasculares, infecciosas ou traumáticas.
O fator ais importante quando se pensa em Surdez Súbita é a urgência, o tempo. Frente a perda súbita de audição, um atendimento médico otorrinolaringológico deve ser feito de preferência no mesmo dia, no dia seguinte ou assim que possível.
Como o exame clínico é na maioria das vezes normal, segue-se o exame de audiometria. Quando se revela a perda de 30 ou mais decibéis em 3 ou mais frequências testadas em um dos ouvidos, confirma-se o diagnóstico de surdez súbita. Caso o paciente tenha outras queixas não relacionadas a audição (neurológicas, dermatológicas, visuais) deveremos solicitar exames específicos que nos ajudem a investigar a causa da surdez. A história do uso recente de medicamentos também deve ser colhida devido a chance de toxicidade.
Uma ressonância nuclear magnética deve ser feita em todos os pacientes para se afastar a chance de lesões do nervo auditivo ou do sistema nervoso central, conforme mencionado anteriormente.
Como na maioria das vezes ficamos sem o diagnóstico preciso da causa, a maior atenção é dada ao tratamento da surdez súbita. Embora várias modalidades já tenha sido apresentadas e usadas, o consenso mais recente da academia americana de ORL recai sobre o uso de corticoesteroides orais ou em aplicações intratimpânicas. Muita atenção tem sido dada a esse último método nos últimos anos devido aos riscos relacionados ao uso de corticoides orais em altas doses e períodos prolongados. Além disso, com os métodos atuais de endoscopia e microscopia, a aplicação intratimpânica de corticoides que pode ser realizada em consultório em algumas sessões, com baixíssimos índices de complicações.

Infelizmente muitos pacientes permanecem com sequelas auditivas e raramente podem ter uma perda auditiva total (surdez profunda) como sequela. Em todos os casos de sequelas há opções de tratamentos de reabilitação, seja como aparelhos auditivos comuns, o uso do sistema CROSS da Phonak ou o implante BAHA da Cochlear. Em alguns países, especialmente na Europa, muitos pacientes com surdez profunda unilateral têm recebido implante coclear para recuperar a audição binaural e suas vantagens. Entretanto esse método ainda não está aprovado nos EUA nem no Brasil para esse fim.

Por último, como em quase todas as questões de saúde, vale lembrar que uma vida saudável, cuidados gerais de saúde e de prevenção da surdez, evitando os fatores de risco para a mesma são importantes sempre. Apesar do avanço tecnológico e científico dedicados a saúde, muitas dúvidas permanecem se continuarão. Como visto na história do primeiro parágrafo, mesmo um estresse evitado pode ser a melhor maneira de evitar a surdez ou outros problemas médicos.

 

Referência: AAO-HNSF Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss
março 2012