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O Custo Invisível da Perda Auditiva Não Tratada – Sinal/Ruído Edição 3

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Newsletter sobre audição, tecnologia e pensamento crítico — por Luciano Moreira — Edição 3 • Maio/2026

O custo visível da perda auditiva é o som que se perde. O custo invisível é a vida que vai ficando menor.

Nesta edição

Quando a gente fala em perda auditiva, a imagem que vem à cabeça é a de um órgão isolado falhando — a cóclea que envelhece, o ouvido que não trabalha mais como antes. A ciência da última década aponta para outro lugar. Ouvir mal é um evento sistêmico. Ele reorganiza o cérebro, muda o comportamento, acelera o declínio cognitivo, aumenta o risco de morrer mais cedo e tem um custo econômico mensurável. A audição não é um “sentido entre outros”. Ela é um dos pilares centrais da saúde neurológica, psiquiátrica e cardiovascular. E o paciente que chega ao consultório dizendo que tem “só um pouquinho de dificuldade” costuma estar descrevendo apenas a ponta do iceberg.

Esta edição da Sinal/Ruído é sobre o iceberg.

Vou organizar o que está publicado em três camadas — porque nem todo custo está escondido da mesma forma. Uma parte já foi absorvida pelo grande público e pelas campanhas de saúde. Outra ainda é invisível, mas pode ser medida com um boletim de internação, um laudo de acidente ou um contracheque. E uma terceira só aparece quando se olha dentro do cérebro.

Camada 1 — O que já sabemos (e mesmo assim ignoramos)

A primeira camada é a mais conhecida: perda auditiva está associada a isolamento, depressão e demência. Virou manchete, entrou nas campanhas institucionais, foi martelada pela Lancet Commission on Dementia Prevention — e continua sendo sistematicamente ignorada no consultório.

O dado interventivo mais importante da década está no ensaio ACHIEVE (Lin et al., Lancet, 2023). Em idosos com fatores de risco para demência, o simples tratamento da perda auditiva — aparelho bem adaptado, acompanhamento — reduziu até 48% a velocidade de declínio cognitivo em 3 anos. Não é um efeito hipotético, de modelo animal ou de coorte observacional. É ensaio randomizado, multicêntrico, com desfecho clínico duro. Em um subgrupo vulnerável, colocar aparelho teve impacto equivalente ao que se esperaria de uma droga modificadora de doença.

E não é fenômeno “de país rico”. O ELSA-Brasil (Samelli et al., Journal of Alzheimer’s Disease, 2025) acompanhou 805 adultos de meia-idade em São Paulo por oito anos. Quem tinha perda auditiva declinou cognitivamente mais rápido que seus pares com audição normal — no mesmo padrão visto nos estudos americanos e europeus. O cérebro brasileiro não é mais resistente, e o nosso sistema de saúde não é mais rápido em oferecer tratamento.

Essa é a ponta do iceberg que já está fora d’água. O problema é que ver a ponta não vem mudando o comportamento. E é quando a gente afunda um pouco mais que o quadro fica pesado.

Camada 2 — O que é invisível para o paciente, mas aparece no dado

Aqui entra o território menos óbvio. São consequências que qualquer médico deveria conhecer, mas que quase nunca entram na conversa quando o paciente pondera “se vale ou não a pena”. Todas elas compartilham uma característica: não precisam de neurociência para serem medidas. Aparecem em prontuários, boletins de ocorrência, registros de folha de pagamento e certidões.

O paciente cai mais, e cai mais vezes

Uma meta-análise publicada em maio de 2025 no JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery (Yeo et al.) reuniu 27 estudos com mais de 5 milhões de participantes. Resultado: pessoas com perda auditiva têm 51% mais chance de cair em análises transversais e 17% mais risco em análises longitudinais. O mecanismo é razoável — ouvir o ambiente é parte do sistema de equilíbrio, e o cérebro que gasta energia decifrando fala no ruído tem menos recursos para monitorar o próprio corpo no espaço. Para o idoso, uma queda pode ser o último evento médico relevante da sua vida.

O hospital e o pronto-socorro viram rotina

Uma coorte de base populacional de Alberta, no Canadá, acompanhou cerca de 4,7 milhões de pessoas e publicou em 2023 na eClinicalMedicine o retrato talvez mais honesto do que a perda auditiva custa ao sistema de saúde. Pacientes com perda auditiva tiveram 65% mais dias de internação, 72% mais quedas que motivaram atendimento médico, 40% mais eventos adversos com medicamentos e 21% mais visitas à emergência. Os autores ajustaram para idade, sexo e comorbidades. Não é envelhecimento puro. É o custo do déficit auditivo mal tratado atravessando o sistema.

O erro de medicação começa na consulta

Um dado que me incomoda particularmente: o paciente não escuta direito a orientação médica, reformula a dose em casa e o remédio vira evento adverso. O estudo irlandês de Henn e colaboradores, publicado em 2021 no Journal of Patient Safety, mostrou o problema com clareza — a prescrição oral em consultório é uma das principais portas de entrada para erros em pacientes com perda auditiva. A solução não depende de tecnologia nova. Depende do médico perguntar, do paciente avisar e do consultório ter acesso mínimo a uma audiometria antes de liberar receita relevante.

O trânsito também cobra

Ouvir é parte da consciência situacional ao volante, e por isso perda auditiva aparece como fator de risco em estudos populacionais sobre acidentes de trânsito. Os dados aqui são mais heterogêneos que os de quedas e pedem cautela antes de generalizar, mas a direção do sinal é consistente. Uma audiometria regular deveria ser tão trivial quanto o exame oftalmológico para quem dirige.

O salário diminui

O dado mais relevante, e o menos discutido, talvez seja o econômico. A coorte norueguesa HUNT acompanhou trabalhadores por 20 anos e publicou em janeiro de 2025 na Ear and Hearing que a perda auditiva não tratada está associada a cerca de 13% menos ganho acumulado ao longo da vida profissional — algo próximo de €453 por ano por trabalhador com perda moderada. Multiplique por uma carreira inteira e por uma população, e o número começa a fazer sentido: a Organização Mundial da Saúde estima em US$ 980 bilhões por ano o custo global da perda auditiva não tratada (World Report on Hearing, 2021). Não é problema só de idoso. Começa antes dos 50 e cobra juros compostos.

A vida encurta

Por fim, a mortalidade. Uma meta-análise de 2025 no PLOS One reuniu 36 coortes com 6.364.914 participantes. Perda auditiva não tratada está associada a risco 21% maior de morte por qualquer causa — chegando a 28% quando a perda é confirmada por audiometria e não só por auto-relato. Isso não é retórica. É um dos fatores modificáveis com maior impacto sobre sobrevida que a medicina preventiva tem à sua disposição. E ainda assim, ninguém convoca a família quando o patriarca começa a precisar do “volume mais alto na TV”.

Camada 3 — O que é invisível mesmo para o médico

A camada mais profunda do iceberg só aparece quando se olha dentro do cérebro.

O trabalho de Anu Sharma, da Universidade do Colorado, mostrou algo que mudou minha forma de explicar perda auditiva ao paciente. Quando o ouvido para de enviar sinal adequado, o córtex auditivo não fica parado — ele é invadido por outras modalidades sensoriais. A visão e o tato começam a ocupar regiões que deveriam processar som. Esse fenômeno se chama plasticidade transmodal. Ele é detectável por EEG muito antes de o paciente se queixar. O cérebro se reorganiza em silêncio, e essa reorganização tem um custo: quando o aparelho finalmente entra, o cérebro precisa desfazer o caminho que tomou. Isso demora, e não é de graça.

O segundo fenômeno é o esforço auditivo. Se você já saiu de uma reunião barulhenta com sensação de exaustão mental, sabe como isso parece por dentro. O que é novo é ter um jeito objetivo de medir: a pupilometria. A pupila dilata mais quando o cérebro trabalha mais — e os estudos de Zekveld, Kramer e colaboradores no Ear and Hearing (2018) mostram que pacientes com perda auditiva mantêm pupilas mais dilatadas até em tarefas fáceis, o reflexo de um custo cognitivo permanentemente elevado. A fadiga que o paciente descreve no fim do dia não é frescura. É energia cerebral drenada para fazer um trabalho que a cóclea doente deixou de fazer.

Essas duas camadas invisíveis — reorganização cortical e esforço crônico — são o combustível biológico por trás dos desfechos clínicos das duas camadas anteriores. Não é mágica. É economia de recursos cerebrais.

O sinal: onde mora a esperança

Até aqui, parece que esta edição é um manifesto pessimista. Não é. Todo esse quadro serve para uma conclusão oposta: poucas áreas da medicina oferecem tantos pontos de virada documentados para uma única intervenção.

Cognição. No ACHIEVE, o tratamento auditivo reduziu quase pela metade a velocidade de declínio cognitivo em idosos vulneráveis (Lin et al., 2023).

Plasticidade. O uso consistente de aparelho auditivo, em seis meses, reverte marcadores eletrofisiológicos de reorganização cortical e melhora a cognição (Glick & Sharma, 2020). O cérebro aceita o som de volta.

Vida social. Uma análise secundária do ACHIEVE publicada em 2025 (Reed et al., JAMA Internal Medicine) mostrou que os idosos tratados mantiveram mais contatos sociais ativos ao longo de três anos que os do grupo controle. Ouvir volta a permitir conversar — e conversar é o que sustenta o cérebro idoso.

Quedas. O uso consistente de aparelho auditivo está associado a menor risco de cair, revertendo parte do excesso visto nas meta-análises.

Vida econômica. O mesmo estudo norueguês que mostra a queda de renda mostra que esse diferencial diminui significativamente em trabalhadores que usam aparelho de forma consistente.

Em síntese: a perda auditiva tratada não é o paciente curado. É o paciente que volta a existir com o cérebro menos sobrecarregado, o equilíbrio menos comprometido, a conversa menos perdida e o salário preservado. E essa volta é mensurável.

A negação tem nome

Nada disso é novo. O que é novo é ter os dados agrupados em um só lugar. E mesmo assim, a negação persiste — nossa, do paciente, da família. “Eu ouço bem o suficiente”, “o problema é a TV”, “todo mundo na minha idade é assim”, “prefiro sem o aparelho”.

A negação não é defeito moral. É um mecanismo psicológico compreensível diante de uma condição crônica e de uma indústria que, historicamente, vendeu seus dispositivos de forma atrapalhada. Mas a negação tem uma conta, e ela é paga em neurônios, em quedas, em relacionamentos, em renda e em anos de vida. Nomear isso com clareza, sem infantilizar o paciente, é responsabilidade médica.

O que fazer com isso

Se você é paciente, quatro coisas concretas:

  1. Faça uma audiometria se passou dos 50, ou antes disso se alguém da família já comentou sobre sua audição.
  2. Se tem perda, não negocie com ela. Tempo em surdez é tempo trabalhando contra o seu cérebro.
  3. Leve os dados desta edição para a conversa em família. A decisão de tratar não é só sua.
  4. Cobre consistência no uso. Aparelho auditivo na gaveta é dinheiro e cérebro jogados fora juntos.

Se você é profissional de saúde, três:

  1. Pergunte sobre audição em toda consulta de adulto, não só quando o paciente reclama.
  2. Rastreie antes de prescrever medicação crônica em idoso.
  3. Pare de dizer “é da idade”. A idade não justifica um déficit que tem tratamento.

Recomendação de leitura

A Lancet Commission sobre prevenção de demência é a referência mais importante da década, e já falei dela em outros canais. Para esta edição, prefiro indicar algo menos óbvio e que mostra, com beleza, o outro lado da equação:

Glick HA, Sharma A. Cortical Neuroplasticity and Cognitive Function in Early-Stage, Mild-Moderate Hearing Loss: Evidence of Neurocognitive Benefit From Hearing Aid Use. Frontiers in Neuroscience, 2020; 14:93. doi:10.3389/fnins.2020.00093

O artigo mostra, em adultos com perda leve a moderada, que o cérebro invadido por outras modalidades sensoriais aceita o som de volta quando o aparelho entra em uso consistente. Os marcadores eletrofisiológicos se normalizam, a cognição melhora, a percepção de fala no ruído sobe. Nenhum tratamento farmacológico. O tratamento foi escutar de novo. Leitura essencial para quem tem dificuldade em acreditar que a intervenção funciona no nível do cérebro, e não só no do ouvido.

Reflexão final

Saí da leitura dos dados sem dramatismo, mas com uma certeza antiga reforçada. Ouvir é mais do que um sentido — é o meio pelo qual o cérebro conversa com o mundo. Quando a conversa cai, o cérebro se reorganiza para sobreviver no silêncio, o corpo perde referências de equilíbrio, o bolso paga a conta e a vida encurta. Nada disso é poético, é biológico.

A boa notícia é que, talvez em nenhuma outra área da medicina, uma intervenção relativamente simples produza tantos desfechos positivos ao mesmo tempo. Colocar som de volta no cérebro — com aparelho auditivo, com implante, com treino — reverte parte da cascata. Não toda, não perfeitamente, mas o suficiente para mudar uma trajetória.

O papel da Sinal/Ruído é entregar a você o sinal por trás do ruído das notícias fragmentadas, das campanhas superficiais e da desinformação. Nesta edição, o sinal é este: a perda auditiva não é um incômodo. É um evento sistêmico. E ela é tratável.

Na próxima edição, em junho, vamos falar do que dá errado antes do tratamento: os erros diagnósticos na audição. Audiometrias mal feitas ou não feitas, otosclerose ignorada, candidatos a implante coclear que ficam anos sem indicação, triagem neonatal falha, ausência de avaliação em idade escolar, aparelho auditivo mal ajustado. O Brasil forma poucos especialistas em audição, e o paciente paga — muitas vezes caro — pelo resultado dessa lacuna. Vai ser uma conversa desconfortável. E necessária.

Obrigado por ter lido até aqui. Se esta edição te ajudou a enxergar o tamanho real do problema — e, ao mesmo tempo, o tamanho real da solução —, o objetivo foi cumprido.

Abraço,

Luciano Moreira

Edições anteriores

Referências citadas nesta edição

1. World Health Organization. World Report on Hearing. Geneva: WHO; 2021. who.int/publications/b/56751

2. Lin FR, Pike JR, Albert MS, et al. Hearing intervention versus health education control to reduce cognitive decline in older adults with hearing loss in the USA (ACHIEVE): a multicentre, randomised controlled trial. Lancet. 2023;402(10404):786–797. doi:10.1016/S0140-6736(23)01406-X

3. Samelli AG, Gonçalves NG, Padilha FYOMM, et al. Hearing loss and cognitive decline in the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil) during eight years of follow-up. J Alzheimers Dis. 2025. doi:10.1177/13872877251315043

4. Yeo BSY, Tan VYJ, Ng JH, et al. Hearing Loss and Falls: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2025;151(5):415–425. doi:10.1001/jamaoto.2025.0213

5. Manrique-Huarte R, Hamilton C, Bhutta MF, et al. The population-level burden of hearing loss in Alberta, Canada: a retrospective cohort study. eClinicalMedicine. 2023;61:102076. doi:10.1016/j.eclinm.2023.102076

6. Henn P, Gaffney P, Dunn MJ, et al. The Impact of Hearing Loss on Patient Safety. J Patient Saf. 2021;17(3):e155–e160. doi:10.1097/PTS.0000000000000350

7. Brondum KO, et al. Long-term labor market consequences of hearing loss in the Norwegian HUNT cohort. Ear Hear. 2025;46(1):85–95. doi:10.1097/AUD.0000000000001571

8. Ye X, et al. Association of hearing loss with all-cause and cause-specific mortality: a systematic review and meta-analysis of 36 cohort studies. PLOS One. 2025;20(10):e0333125. doi:10.1371/journal.pone.0333125

9. Glick HA, Sharma A. Cortical Neuroplasticity and Cognitive Function in Early-Stage, Mild-Moderate Hearing Loss: Evidence of Neurocognitive Benefit From Hearing Aid Use. Front Neurosci. 2020;14:93. doi:10.3389/fnins.2020.00093

10. Zekveld AA, Koelewijn T, Kramer SE. The Pupil Dilation Response to Auditory Stimuli: Current State of Knowledge. Trends Hear. 2018;22:2331216518777174. doi:10.1177/2331216518777174

11. Reed NS, Pike JR, Deal JA, et al. Hearing Intervention and Change in Social Network Characteristics Among Community-Dwelling Older Adults: The ACHIEVE Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. 2025;185(7):812–822. doi:10.1001/jamainternmed.2025.0902

12. Livingston G, Huntley J, Liu KY, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. Lancet. 2024;404(10452):572–628. doi:10.1016/S0140-6736(24)01296-0

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