Na maioria dos pacientes é possível realizar ressonância magnética (RM) com implante coclear, desde que a marca e o modelo exatos do implante interno sejam confirmados e o exame siga as condições do fabricante (campo 1,5T ou 3T, necessidade de kit/bandagem, restrições de posição e, em alguns casos, remoção do ímã).
Quem tem IMPLANTE COCLEAR pode fazer ressonância magnética?
A resposta segura é: depende! Medida fundamental (não negociável): antes de agendar a Ressonância Magnética, confirme com o médico otorrino que fez o seu implante coclear responsável pelo paciente qual é o modelo (ou modelos) implantado(s) em cada orelha. ATENÇÃO: Não confundir modelo do implante interno (esse é o que interessa!) com o modelo do processador externo.
Por que a Ressonância Magnética exige cuidado em quem tem implante coclear?
- O implante contém um ímã interno e componentes metálicos que sofrem forças de tração/torque dentro do campo magnético.
- Se a RM for feita fora das condições indicadas, podem ocorrer dor intensa, deslocamento do ímã, necessidade de cirurgia, falha do dispositivo e/ou artefato que inviabiliza o diagnóstico.
- O artefato na imagem é real e pode encobrir estruturas próximas ao implante (especialmente em exames de crânio/base do crânio).
Checklist pré-Ressonância Magnética para usuários de implante coclear (o que a equipe precisa checar)
- Confirmar marca e modelo do implante interno (com o centro de implante/audiologista, cartão do implante e/ou prontuário).
- Confirmar se o paciente é bilateral e se os dois lados têm o mesmo modelo.
- Definir o campo do exame (1,5T ou 3T) e a região anatômica a ser estudada.
- Checar a condição do fabricante para aquele modelo: ímã pode ficar? precisa de kit/bandagem? há restrição de posição da cabeça? há exigência de remoção do ímã? há contraindicação?
- Retirar todos os componentes externos do sistema antes de entrar na sala de RM (processador, bobina externa, acessórios).
- Planejar o manejo do artefato: se o alvo diagnóstico estiver perto do implante, discutir com Radiologia estratégias e, quando indicado, considerar remoção do ímã conforme manual.
Tabela prática de compatibilidade (marcas, gerações e RM 1,5T/3T)
| Marca | Gerações / exemplos de modelos (implante interno) | RM 1,5T | RM 3T | Observação essencial |
| Advanced Bionics (AB) | HiRes Ultra 3D; HiRes Ultra; HiRes 90K/90K Advantage; (Clarion C1/CII: antigos) | Ultra 3D: permitido (sem bandagem); HiRes Ultra: permitido com protocolo de bandagem; HiRes 90K: apenas com remoção cirúrgica do ímã; Clarion C1/CII: contraindicado | Ultra 3D: permitido; HiRes Ultra: requer remoção cirúrgica do ímã; HiRes 90K: não indicado; Clarion C1/CII: contraindicado | Em AB, a necessidade de bandagem/remoção varia muito por geração. Identificar o modelo exato muda a conduta. |
| Cochlear (Nucleus) | CI1000 (CI1012/1022/1024/1032) e CI600 (CI612/622/624/632); CI500; CI24RE/CI24R/CI24M; CI22M | CI1000/CI600: permitido sem kit; CI500 e CI24*: permitido com MRI Kit (bandagem) com ímã no lugar; CI22M com ímã removível: permitido com MRI Kit; CI22M sem ímã removível: contraindicado | CI1000/CI600: permitido sem kit; CI500 e CI24*: exige remoção do ímã; CI 11+11+2M e CI22M: 3T contraindicado | A Cochlear separa claramente séries que dispensam kit (CI1000/CI600) das que exigem MRI Kit em 1,5T e remoção do ímã em 3T. |
| MED-EL | SYNCHRONY (Mi1200/Mi1210) e SYNCHRONY 2 (Mi1250); gerações anteriores: CONCERTO, SONATA, PULSAR, C40+/C40 | SYNCHRONY/SYNCHRONY 2: permitido; gerações anteriores: permitido (em geral até 1,5T) com bandagem elástica conforme manual | SYNCHRONY 2 (Mi1250): permitido sob condições; outras gerações listadas no documento: não indicadas para 3T | Mesmo dentro da MED-EL, 3T não é “para todos”. Diferencie SYNCHRONY 2 das gerações anteriores. |
Riscos reais e como minimizar:
- Dor durante o exame: mais comum quando há torque no ímã ou bandagem inadequada. Se houver dor importante, o exame deve ser interrompido e o protocolo revisto.
- Deslocamento do ímã: risco maior quando o modelo exige bandagem e ela não é aplicada corretamente, ou quando o exame é feito fora das condições do fabricante.
- Falha do dispositivo: rara, mas possível em situações fora do manual. Por isso a checagem do modelo é central.
- Artefato (sombra) na imagem: pode inviabilizar diagnóstico de estruturas próximas. Em alguns casos, a remoção do ímã é indicada principalmente por qualidade de imagem, não apenas por segurança.
Local do exame de ressonância magnética importa
- Crânio, base do crânio e orelha: maior impacto do artefato; maior chance de precisar discutir remoção do ímã e/ou técnicas de redução de artefato.
- Coluna cervical alta: pode sofrer mais artefato do lado implantado.
- Coluna torácica, lombar, abdome e pelve: em geral o alvo está mais distante do implante; ainda assim, as condições do fabricante permanecem obrigatórias.
Quando considerar remoção do ímã do implante coclear antes de fazer ressonância magnética (quando o manual permitir e a indicação justificar)
- Quando o modelo exige remoção para 3T.
- Quando o alvo diagnóstico está muito próximo do implante e o artefato tende a “apagar” a região de interesse.
- Quando há histórico de dor importante em RM anterior mesmo com protocolo correto (reavaliar caso a caso).
Perguntas rápidas sobre implante coclear e ressonância magnética
1) Preciso tirar o processador externo?
Sim. Componentes externos do sistema não entram na sala de RM.
2) Basta saber a marca?
Não. A conduta depende do modelo e da geração do implante interno. Em pacientes bilaterais, pode haver modelos diferentes em cada lado.
3) Quem deve confirmar o modelo?
O caminho mais seguro é confirmar com o audiologista do centro de implante responsável e checar documentação do implante. Se houver dúvida, usar imagem (ex.: raio-X) e contato com o fabricante conforme protocolo do serviço.
Conclusão
RM e implante coclear podem conviver bem, mas não aceitam “achismo”. Quando a equipe confirma o modelo exato, aplica o protocolo correto (kit/bandagem quando indicado) e discute artefato com Radiologia, a segurança sobe e o exame entrega o diagnóstico que o paciente precisa.
Sobre o Autor
Dr. Luciano Moreira – CRM-RJ 52.65192-3. Médico Otorrinolaringologista especializado em Otologia e Implante Coclear. Ampla experiência em implantes bilaterais, tanto simultâneos quanto sequenciais.
Artigo revisado e atualizado em fevereiro de 2026. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica.


