Não é hora de parar, mas de nos adaptarmos à nova realidade, com uso da telemedicina e práticas de proteção aprimoradas.

Sou médico otorrinolaringologista. Faço parte de uma das áreas mais exposta ao novo coronavírus, já que ele é transmitido principalmente pelas vias aéreas. Nesses poucos meses de epidemia, vários colegas de especialidade contraíram a Covid-19 ao redor do mundo enquanto prestavam assistência clínica e cirúrgica a doentes com diferentes doenças e queixas. Infelizmente, alguns morreram.

Por motivos que ainda não conhecemos em detalhes, a velocidade de alastramento da pandemia pegou quase todos de surpresa. Soma-se a isso o comportamento desconhecido do novo vírus e sua doença. Diante do susto, é natural e desejável que governantes, autoridades sanitárias e sociedades médicas tenham cautela para proteger profissionais e a sociedade em geral. No ponto atual – em que a epidemia já completa poucos meses para os países mais ao oriente e semanas do nosso lado ocidental – vamos acumulando algum conhecimento sobre o inimigo e poucas lições sobre as melhores formas do enfrentamento. Pelo comportamento da epidemia sobretudo na China e nos países mais acometidos da Europa, ficou claro que o afastamento social com medidas de higiene social é a principal arma nessa guerra. No front de batalha contra o vírus com medicamentos e vacinas, temos acumulado pesquisas e avanços, mas é cedo para dizer que temos uma arma infalível contra o vírus.

Feita a introdução, minha mensagem vai em forma de alerta. Estamos exagerando na dose de suspensão da oferta de serviços médicos. Trabalho num edifício na zona sul da cidade do Rio de Janeiro que abriga exclusivamente consultórios e serviços de saúde. Desde o início da quarentena tenho vindo diariamente ao trabalho e o que vejo é o prédio vazio e quase a totalidade dos consultórios fechados. Recebo relatos de colegas de que em seus locais de trabalho a situação é a mesma.

As Doenças Não Param

Desde o início da epidemia, atendi presencialmente pessoas com corpos estranhos no ouvido, abcessos, otites, crises de tontura, dentre outras queixas que simplesmente não podem esperar.  Várias outras doenças têm características progressivas ou podem se complicar caso seu tratamento seja postergado. Em vários casos, mesmo os pacientes considerados “curados” precisam ser acompanhados durantes meses ou anos, pois suas doenças podem voltar, eventualmente com consequências desastrosas.

Ainda na minha atividade pessoal, trato muitas crianças e adultos com perda de audição. No caso dos bebês que nascem surdos, sabemos que a realização da cirurgia de implante coclear deve ser feita o quanto antes – se possível dentro do primeiro ano de vida – para que aconteça o bom desenvolvimento de fala e linguagem. Esse é apenas um exemplo de uma situação que não se enquadra no conceito clássico de urgência ou emergência, mas em que uma espera de meses pode trazer uma consequência com impactos negativos para o resto da vida de uma criança.

Tenho certeza de que vivemos um momento de grande transformação na área de assistência a saúde. Rotinas de segurança terão que ser revistas e aprimoradas. Serviços de combate a infecções no ambiente hospitalar e ambulatorial serão necessariamente fortalecidos, para maior segurança de pacientes e profissionais. A telemedicina, agora liberada de forma ainda provisória por uma portaria do Ministério da Saúde é uma arma fundamental. Ela facilita não só o acesso aos serviços de saúde num país de dimensões continentais, mas também aumenta a segurança sanitária, minimizando a convivência de doentes entre si e com os profissionais de saúde e diminuindo a circulação em ambientes potencialmente contaminados.

Esse é o momento de os serviços de saúde aderirem em massa a telemedicina para garantir a manutenção do amparo aos doentes nesse momento de crise.  Além disso, precisamos aprender juntos, na prática, os melhores limites e as melhores práticas dos serviços médicos prestados de forma remota. Precisamos dispor da telemedicina de forma definitiva, para o bem de todos!

Ainda estamos longe da nossa vitória final contra o novo coronavírus, assim precisamos manter a máxima redução do convívio social. Mais do que isso, precisamos cada um de nós pensar em como reduzir esse convívio para sempre, com salas de espera menos cheias e menos exposição ao risco.

Por fim, na medida que vai passando o susto inicial, precisamos mais do que nunca olhar para cada paciente de forma personalizada. Suspender indiscriminadamente todos os atendimentos e cirurgias eletivos (não urgentes) é uma medida simplista demais diante da complexidade e da variabilidade das doenças e da medicina. Além de obrigatoriamente mantermos disponíveis todos os atendimentos de urgência, é igualmente urgente olhar para cada um de forma mais global, pesando o risco sanitário relacionado a pandemia versus o risco da “espera por um tratamento” que pode acabar custando ainda mais vidas.