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Por que a surdez é uma URGÊNCIA NEUROLÓGICA

por que a surdez é uma urgência neurologica

Durante muito tempo, a perda auditiva foi tratada como um problema localizado no ouvido. Mas hoje sabemos que isso não é verdade. A audição não acontece no ouvido, mas sim no cérebro humano. O ouvido apenas capta o som, mas quem realmente interpreta, organiza e transforma esse som em linguagem e dá sentido a ele é o cérebro.

Quando o cérebro deixa de receber estímulo auditivo adequado (por causa da perda auditiva), ele começa a mudar. É por isso que cada vez mais especialistas têm defendido uma ideia importante: a perda auditiva não tratada é uma urgência neurológica.

Por que a surdez é uma urgência neurológica

Ouvir é uma atividade cerebral: o complexo processo do processamento auditivo começa no ouvido, mas termina no cérebro. As ondas sonoras entram pelo ouvido e são transformadas em impulsos elétricos que viajam pelo nervo auditivo até o córtex auditivo, uma região localizada no lobo temporal. É ali que o cérebro:

Ou seja, ouvir exige um trabalho cerebral complexo, porque o cérebro precisa processar milhares de informações sonoras por segundo para que uma conversa aconteça de forma natural. Mas existe um ponto fundamental nesse processo: um cérebro humano depende de estímulo.

O que acontece com o cérebro quando falta estímulo sonoro

O cérebro é altamente plástico – a palavra mágica é neuroplasticidade. Ele se adapta constantemente aos estímulos que recebe, mas quando uma região deixa de ser estimulada, ela pode perder eficiência ao longo do tempo. No caso da perda auditiva, isso significa que o córtex auditivo passa a receber menos informação sonora.

Diversos estudos de neuroimagem mostram que, com o tempo, essas áreas podem sofrer alterações funcionais e estruturais. Parte do cérebro pode até começar a ser ocupada por outras funções sensoriais, como a visão. Esse fenômeno é conhecido como reorganização cortical.

Na prática, isso significa que o cérebro começa a se reorganizar para compensar a falta de estímulo auditivo. O problema é que, quanto mais tempo isso acontece, mais difícil pode ser recuperar plenamente a função auditiva. O cérebro precisa reaprender a ouvir.

A relação entre perda auditiva e demência

Nos últimos anos, um dos achados mais importantes da neurologia e da otorrinolaringologia foi a associação entre perda auditiva e demência.

Um grande estudo publicado na revista The Lancet Commission on Dementia Prevention identificou a perda auditiva como um dos principais fatores de risco modificáveis para demência. Outro estudo clássico conduzido pela Johns Hopkins University acompanhou centenas de pacientes ao longo de vários anos e encontrou resultados impressionantes.

Pessoas com perda auditiva apresentaram:

Esses dados mudaram a forma como os médicos enxergam a audição, e, assim, a perda auditiva deixou de ser vista apenas como um problema sensorial e passou a ser considerada também um fator importante de saúde cerebral.

Por que a perda auditiva pode afetar o cérebro

Existem algumas hipóteses que ajudam a explicar essa relação.

A primeira é o chamado esforço cognitivo. Quando uma pessoa tem perda auditiva, o cérebro precisa trabalhar muito mais para compreender a fala e os sons, e parte dos recursos mentais passa a ser usada apenas para preencher lacunas sonoras. Isso reduz a capacidade do cérebro para outras funções, como memória e raciocínio.

A segunda hipótese envolve o isolamento social. Muitas pessoas com perda auditiva começam a evitar ambientes com muitas pessoas ou conversas em grupo porque sentem uma dificuldade grande de compreender as conversas.  Com o tempo, isso reduz a interação social, que é um estímulo importante para o cérebro.

A terceira hipótese é a própria privação sensorial. Quando o cérebro deixa de receber estímulos auditivos de forma consistente, algumas áreas podem entrar em processo de declínio funcional. Provavelmente, a relação entre perda auditiva e demência envolve uma combinação desses fatores.

Os efeitos da perda auditiva em bebês e crianças

Nos primeiros anos de vida, o cérebro está em pleno desenvolvimento. Existe um período conhecido como janela crítica da linguagem, no qual o cérebro precisa receber estímulos auditivos para desenvolver as redes neurais responsáveis pela fala.

Quando um bebê nasce com perda auditiva e não recebe intervenção precoce, o cérebro deixa de receber parte desses estímulos essenciais. Isso pode resultar em:

Por esse motivo, o diagnóstico precoce é fundamental. Quanto mais cedo a criança recebe estímulo auditivo adequado, maiores são as chances de desenvolvimento normal da linguagem.

O impacto da perda auditiva em adultos

Nos adultos, a perda auditiva costuma aparecer de forma gradual. No início, os sinais são discretos:

Mas o que muitas pessoas não percebem é o esforço mental envolvido nesse processo. O cérebro passa a trabalhar mais para interpretar sons incompletos, e, com o tempo, isso pode gerar:

O cérebro está literalmente trabalhando mais para compensar a perda auditiva.

O impacto da perda auditiva em idosos

O cérebro envelhecido já possui naturalmente menos plasticidade neural. Quando somamos isso à falta de estímulo auditivo, o impacto pode ser ainda maior, e, por isso, tratar a perda auditiva nessa fase da vida pode ter efeitos importantes na preservação da saúde cerebral e na saúde geral do idoso.

Nos idosos, a perda auditiva está associada a vários efeitos importantes:

Por que a perda auditiva precisa ser tratada cedo

Apesar de todas essas evidências, muitas pessoas ainda demoram anos para procurar avaliação médica. É comum ouvir frases como: “Isso é normal da idade.” “Ainda estou ouvindo um pouco.” “Não preciso tratar agora.” “Minha mulher é que fala para dentro”.

Mas a audição é um dos principais estímulos sensoriais do cérebro. Quanto mais tempo o cérebro permanece sem estímulo auditivo adequado, maiores podem ser as consequências. Por isso, cada vez mais especialistas defendem uma mudança de perspectiva: a perda auditiva não deve ser tratada apenas como um problema do ouvido.

Ela deve ser encarada como um problema neurológico. E, como em muitas outras condições neurológicas, quanto mais cedo o tratamento começa, melhores são os resultados.

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