O tema “surdez” representa um paradoxo. Sendo a mais comum das deficiências sensoriais dos seres humanos é também a menos conhecida das escolas. Essas costumam estar cientes das dificuldades enfrentadas por alunos cadeirantes no seu desafio diário de locomoção e inclusão escolar. Portadores da síndrome de Down, crianças com autismo e déficits de atenção também vêm conseguindo relativa atenção do sistema educacional, agora mais propenso à inclusão. Infelizmente, os surdos não têm a mesma sorte. Por isso, a surdez também é chamada de deficiência invisível.

O primeiro e mais importante desafio para a educação dos surdos é combater o desconhecimento sobre o assunto. Para a medicina e para o dicionário, surdez significa “perda parcial ou total da capacidade de ouvir”. Crianças nascidas com perdas auditivas e aquelas que perderam a audição nos primeiros anos de vida, independente do seu nível de perda auditiva, são consideradas surdas. É importante lembrar que a maioria das crianças com surdez, apresentam perda parcial da audição, que pode ser melhorada com uso de aparelhos auditivos

Historicamente, várias crianças que nasceram com surdez profunda (o nível mais grave de perda de audição) adotaram a língua de sinais como sua principal forma de comunicação. Conhecida no Brasil como LIBRAS, a língua de sinais presta até hoje um enorme serviço àqueles que não conseguem se comunicar bem através da língua falada, dita oral. Os usuários da LIBRAS, educados em escolas especiais para surdos, forjaram ao longo dos anos uma genuína cultura surda, rica em vocabulário gestual. Organizados, seus membros conquistaram vitórias importantes para a beneficiar a educação dos surdos sinalizados, como a criação de leis obrigando a presença de tradutores de LIBRAS em escolas e universidades.

Entretanto, a maior parte das crianças deficientes auditivas em idade escolar no Brasil não usa a língua de sinais. A adoção de terapias fonoaudiológicas que estimulam o uso da linguagem oral, associadas ao desenvolvimento crescente de tecnologias de reabilitação auditiva – como aparelhos auditivos e implantes cocleares – são usadas por um número crescente de jovens. Atualmente, crianças brasileiras que nascem sem audição podem ser diagnosticadas a partir da realização de um exame simples, conhecido como Teste da Orelhinha (disponível nos sistemas público e privado de saúde). A partir dele, pode-se chegar ao diagnóstico da surdez nos primeiros meses de vida, muito antes da idade em que a criança começa a falar.

O diagnóstico precoce é a base da intervenção ideal. Em bebês com surdez em grau elevado e sem outros problemas cognitivos, a realização da cirurgia do  implante coclear, associada a terapia fonoaudiológica, é capaz de proporcionar à criança surda um desenvolvimento linguístico muito próximo do normal, com o aprendizado do português falado e escrito, sem a necessidade de uso de língua de sinais ou educação em escolas especiais para surdos. É assim que a moderna reabilitação auditiva – baseada na educação do surdo para a linguagem oral adotada em ambientes de ensino – vem facilitando muito a vida dos alunos deficientes auditivos.

Com essa compreensão, resta-nos planejar a educação dos surdos em etapas. Inicialmente, divulgando informações cientificamente mais adequadas sobre os tipos de surdez e seus métodos de tratamento. Já ao estado cabe usar seu aparato de educação e saúde para identificar e tratar a surdez em idade precoce, permitindo a inclusão da criança surda no meio escolar tradicional. Por fim, profissionais de saúde, educadores e gestores da educação precisam estar atentos às demandas dos surdos usuários de aparelhos auditivos e implantes cocleares, seja no planejamento acústico de escolas e universidades, seja na adequação dos métodos pedagógicos e das tecnologias assistivas compatíveis com os dispositivos de audição usados pelos por eles.