A Jornada Rumo à Cura da Surdez: O Que Já Funciona, O Que Está Chegando e O Que Falhou – Sinal/Ruído Edição 2

Ilustração editorial por Orestes - Sinal/Ruído Edição 2 - Cura da surdez e terapia gênica
Neste artigo você vai aprender:

Newsletter sobre audição, tecnologia e pensamento crítico — por Luciano Moreira — Edição 2 • Abril/2026

Ilustração editorial por Orestes - Sinal/Ruído Edição 2 - Cura da surdez e terapia gênica

“Doutor, já existe cura pra surdez?”

É o que ouço de pais de crianças recém-diagnosticadas. Ouço de adultos que usam aparelho auditivo há décadas. Ouço de pessoas que acabaram de descobrir que estão perdendo a audição e estão apavoradas. E ouço, cada vez mais, de gente que leu alguma manchete sobre terapia gênica ou células-tronco e quer saber se já é hora de aposentar os aparelhos auditivos.

Na edição passada da Sinal/Ruído, prometi que em abril a gente falaria sobre a cura da surdez com honestidade. Aqui estamos. E a resposta, como quase tudo na medicina, não é um sim nem um não. É um “depende” — e eu quero te explicar de que depende, com a mesma franqueza que usaria se você estivesse sentado na minha frente.

Vou dividir o cenário em três camadas: o que já funciona em seres humanos e tem dados publicados no New England Journal of Medicine; o que está chegando e deve mudar a prática clínica nos próximos anos; e o que falhou — as promessas que a ciência testou e que não sobreviveram ao contato com a realidade.

Porque na corrida pela “cura da surdez”, existe tanto sinal quanto ruído. E separar um do outro é exatamente o que a gente faz aqui.

O Que Já Funciona: A Terapia Gênica Para Otoferlina

Se eu tivesse que resumir o avanço mais importante da otologia nos últimos 50 anos em uma frase, seria esta: entre 2024 e 2025, pela primeira vez, estudos em humanos mostraram que a terapia gênica intracoclear pode restaurar audição em crianças com surdez por OTOF. Não estamos falando de aparelhos ou de implantes auditivos. E sim de uma intervenção biológica (um medicamento) que corrigiu o defeito molecular que causava a surdez.

Antes de qualquer entusiasmo, preciso definir exatamente do que estamos falando — porque o diabo mora nos detalhes, e a maioria das manchetes ignora os detalhes.

O alvo: uma doença específica. A terapia gênica que funciona hoje é direcionada a uma forma muito particular de surdez: a DFNB9, causada por mutações no gene da otoferlina. A otoferlina é uma proteína que funciona como o “gatilho de disparo” da sinapse auditiva. Sem ela, as células ciliadas internas da cóclea detectam o som perfeitamente — mas não conseguem transmitir a informação para o nervo auditivo. É como se o microfone funcionasse, mas o cabo estivesse cortado.

O que torna a DFNB9 o alvo ideal é que as células ciliadas e o nervo estão intactos. O problema é na união dos dois, e é exclusivamente molecular. Basta colocar o gene correto de volta para a cadeia de transmissão voltar a funcionar. E foi exatamente isso que quatro programas independentes demonstraram em seres humanos.

Os resultados.

O programa mais maduro é o DB-OTO, da Regeneron (que adquiriu a Decibel Therapeutics). Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine no final de 2025 — e são impressionantes. Doze crianças com surdez profunda por mutação de otoferlina, com idades entre 10 meses e 16 anos, receberam uma única injeção intracoclear com o vetor de terapia gênica. Nove das doze atingiram limiares auditivos iguais ou melhores que 70 dB. Esse número é importante, porque ele costuma ser um divisor de águas entre aqueles que tem ou não indicação de um implante coclear. Três atingiram sensibilidade auditiva média normal; seis passaram a ouvir fala suave sem dispositivos; e, nas crianças com seguimento mais longo, houve progresso de linguagem e percepção de fala.

Em paralelo, a Eli Lilly (via Akouos) tratou uma criança de 11 anos — com mais de uma década de surdez profunda desde o nascimento — e documentou restauração auditiva após uma única dose, atingindo limiares entre 65 e 20 dB HL, com algumas frequências já em faixa normal no dia 30. Esse dado é particularmente relevante porque desafia a ideia de que existe uma janela temporal estreita e inflexível para esse tipo de intervenção.

Na Europa, a Sensorion (programa SENS-501) introduziu uma inovação cirúrgica: combinar a injeção do vetor com uma estapedotomia para criar um circuito de fluxo controlado dentro da cóclea, permitindo uma distribuição mais homogênea do gene ao longo de toda a espiral coclear. A Sensorion reportou sinais precoces de eficácia em 2 de 3 crianças da coorte de maior dose, com limiares de 60 e 70 dB HL na melhor frequência ao mês 3, sustentados ao mês 6.

E na China, o grupo da Universidade de Fudan provou que é viável fazer a terapia gênica bilateral simultânea. Cinco de seis crianças tratadas nos dois ouvidos recuperaram a capacidade de localizar a fonte sonora e compreender fala com as duas orelhas — algo que a intervenção unilateral não oferece.

Agora, a ressalva que a Sinal/Ruído sempre vai fazer.

Primeiro: esses são estudos de fase 1/2, com amostras entre 6 e 12 pacientes. São resultados extraordinários, sim, mas ainda iniciais. Segundo: os ensaios são financiados pelas próprias empresas farmacêuticas que desenvolveram os produtos. Isso não invalida os dados — é assim que toda a indústria funciona — mas exige vigilância. Terceiro, e talvez o mais importante: a terapia gênica para otoferlina resolve uma fração mínima da surdez. Mutações no gene OTOF respondem por cerca de 1 a 8% das surdez genéticas neonatais. A imensa maioria das perdas auditivas — presbiacusia, ototoxicidade, exposição a ruído, otosclerose — não tem nada a ver com otoferlina e não será tocada por esse tratamento.

Dito isso, a importância desse marco vai muito além dos pacientes com DFNB9. O que esses ensaios provaram é que é possível restaurar audição com biologia molecular. Isso muda o paradigma. A porta foi aberta. A questão agora é para quais outras formas de surdez ela pode ser estendida.

O que isso muda no consultório, hoje.

A implicação prática mais urgente é para o médico que avalia um bebê ou criança com diagnóstico de neuropatia auditiva — aquele quadro com emissões otoacústicas presentes e ausência de resposta no PEATE (potencial evocado auditivo de tronco encefálico). Esse perfil audiológico é exatamente o da DFNB9. E se a criança tiver confirmação genética de mutação bialélica em OTOF, ela é uma candidata potencial à terapia gênica.

Isso tem uma consequência direta e importante: a decisão de implantar um implante coclear bilateral precisa ser repensada nesses casos. A inserção mecânica do feixe de eletrodos pode causar fibrose intracoclear e destruir o epitélio celular remanescente — exatamente as células que a terapia gênica precisa que estejam vivas para funcionar. Implantar rapidamente os dois ouvidos, sem investigação genética, pode eliminar a elegibilidade futura da criança para um tratamento potencialmente curativo. Assim, diante do avanço da terapia gênica para OTOF, a testagem genética precoce ganha peso adicional na discussão do timing e da lateralidade do implante coclear.

O Que Está Chegando: Horizonte de 2 a 7 Anos

Se a terapia gênica para otoferlina é o sinal forte — a prova de conceito que funciona —, as frentes que descrevo agora são o sinal em potencial: abordagens com base biológica sólida, dados de segurança em modelos animais e ensaios em humanos em andamento. Ainda não são realidade clínica, mas a trajetória é consistente. E o mais importante: elas miram populações muito maiores de pacientes.

Regeneração do nervo auditivo: Rinri Therapeutics e o Rincell-1

A maior parte das pesquisas em regeneração auditiva sempre focou nas células ciliadas — as células sensoriais da cóclea que detectam o som. Mas existe um problema igualmente grave e muito menos discutido: a degeneração dos neurônios do gânglio espiral e das fibras do nervo auditivo. Em muitos pacientes com presbiacusia e com neuropatias auditivas, o gargalo principal não é a detecção do som, mas a transmissão do sinal para o cérebro. E isso afeta diretamente o desempenho do implante coclear, que depende de um nervo auditivo viável para funcionar.

A Rinri Therapeutics, uma biotecnológica britânica, desenvolveu o Rincell-1: um produto de terapia celular composto por células progenitoras neurais óticas, derivadas de células-tronco embrionárias humanas. O objetivo é regenerar as conexões nervosas entre o ouvido interno e o cérebro. Em julho de 2025, a agência reguladora britânica (MHRA) aprovou o primeiro ensaio clínico em humanos — o primeiro teste global de um enxerto de células-tronco no neuroepitélio do ouvido.

O desenho do ensaio é bastante direto. O Rincell-1 será infundido durante a cirurgia de implante coclear em 20 pacientes adultos. Eis a lógica: o implante substitui a função das células ciliadas mortas, enquanto o enxerto celular tenta reconstruir as fibras nervosas ao redor dos eletrodos, melhorando a interface tecido-eletrodo (a ligação entre o implante e o nervo auditivo). Isso poderia, teoricamente, melhorar bastante a percepção de fala.

Ainda é fase 1. Os resultados não chegaram. Mas o racional é sólido e, se funcionar, tem potencial para transformar o prognóstico dos implantados que têm o nervo auditivo atrofiado — que hoje são os pacientes com piores resultados.

Primeiro fármaco oral para perda auditiva: Ebselen (SPI-1005)

Enquanto a terapia gênica exige cirurgia intracoclear e a terapia celular está nos primeiros passos, existe uma frente mais prosaica mas igualmente relevante: a farmacologia. E aqui temos uma novidade concreta.

O Ebselen (SPI-1005), da Sound Pharmaceuticals, é um mimético da enzima Glutationa Peroxidase — essencialmente, uma molécula que neutraliza o estresse oxidativo dentro da cóclea. Ele foi testado em um estudo de Fase 3 randomizado e controlado (STOPMD-3) com 221 pacientes com doença de Ménière ativa. Os resultados: 57,9% dos pacientes tratados tiveram ganho auditivo clinicamente significativo (10 dB ou mais nas frequências graves), contra 36,5% no grupo placebo. Também houve melhora na discriminação de fala no ruído.

Em dezembro de 2025, o FDA concedeu ao SPI-1005 a designação de Breakthrough Therapy para perda auditiva na doença de Ménière. É o primeiro fármaco a receber esse status para perda auditiva neurossensorial. Isso não significa aprovação — significa que o FDA reconhece que os dados são promissores o suficiente para acelerar o processo regulatório.

Para os pacientes com Ménière que convivem com a angústia das crises de vertigem e a perda auditiva flutuante e progressiva, essa é uma notícia relevante. Não é cura. É o primeiro modificador farmacológico com dados de Fase 3 positivos para uma condição que, até hoje, não tem nenhum tratamento aprovado pelo FDA que altere a história natural da doença. E de todas as frentes que descrevo nesta seção, o Ebselen é a que está mais perto de virar realidade clínica — e não é pouco. É o único com um estudo pivotal de Fase 3 concluído, com endpoints primários atingidos, e com a designação de Breakthrough Therapy do FDA, que abre caminho para revisão acelerada. O que separa o SPI-1005 da sua chegada ao mercado vai deixando de ser uma questão de “será que funciona?”, e se consolidando no terreno da burocracia regulatória: um estudo adicional de segurança para uso crônico que está começando agora, seguido da submissão formal ao FDA.

Se tudo correr dentro do esperado, estamos falando de um horizonte de 2 a 3 anos. Para uma área em que nenhum fármaco jamais foi aprovado para tratar perda auditiva neurossensorial, isso é extraordinário. Entretanto, a Sound Pharmaceuticals é uma empresa pequena e privada, sem o caixa de uma Regeneron ou Eli Lilly. A distância entre um dado positivo e uma caixa de remédio na prateleira ainda é real. Vamos acompanhar.

AC102: uma alternativa para surdez súbita?

O AC102, da AudioCure Pharma, é uma molécula com efeito duplo: protege a célula ciliada contra apoptose (morte celular programada) e estimula a regeneração das conexões sinápticas danificadas. Está em Fase 2 na Europa, em um estudo comparativo contra o tratamento padrão atual da surdez súbita idiopática: corticosteroides. Se os dados forem positivos, poderá substituir um tratamento que, para ser honesto, tem uma base de evidência frágil e resultados inconsistentes.

GJB2 (Conexina 26): a próxima fronteira genética

Se a otoferlina é a prova de conceito, o gene GJB2 é o grande prêmio. Mutações no GJB2 respondem por até metade de todos os casos de surdez de origem genética em crianças. É, de longe, a causa genética mais comum de surdez no mundo. O gene codifica a Conexina 26, uma proteína que forma as junções comunicantes entre as células de suporte da cóclea, essenciais para a reciclagem de potássio e a manutenção do potencial endococlear.

A Sensorion, em parceria com o Institut Pasteur, está desenvolvendo o SENS-601, uma terapia gênica direcionada ao GJB2. O desafio técnico é maior do que no caso da otoferlina: enquanto o OTOF precisa chegar às células ciliadas internas, o GJB2 precisa alcançar as células de suporte e os fibrócitos — alvos celulares diferentes, com exigências de tropismo viral distintas. Dados pré-clínicos em primatas são encorajadores, e a submissão para início de ensaios em humanos está prevista para o primeiro semestre de 2026.

Se funcionar, a escala de impacto é incomparavelmente maior do que a otoferlina. Mas “se funcionar” são duas palavras que a ciência nos ensinou a respeitar.

O Cemitério das Promessas: O Que Falhou e Por Quê

Toda edição da Sinal/Ruído tem a obrigação de mostrar o outro lado. Porque na busca pela cura da surdez, para cada avanço real, existem fracassos espetaculares que foram vendidos como revolução. E esses fracassos são tão instrutivos quanto os sucessos — talvez mais.

FX-322 (Frequency Therapeutics): a promessa que desmoronou

O FX-322 foi, provavelmente, a droga mais celebrada pela mídia e pelos fóruns de pacientes na última década. A tese era sedutora: um coquetel de pequenas moléculas, injetado através do tímpano, que ativaria as vias de sinalização nas células de suporte da cóclea, forçando-as a se converter em novas células ciliadas sensoriais. Em outras palavras: regeneração coclear induzida por um fármaco.

Em camundongos e em culturas de tecido in vitro, funcionou. As células se convertiam. A comunidade celebrou. A empresa abriu capital, captou centenas de milhões de dólares e avançou para os testes em humanos.

No estudo de Fase 2b, com 142 pacientes com perda auditiva neurossensorial crônica, o FX-322 não mostrou nenhuma separação estatística do placebo em nenhuma das métricas de audição ou percepção de fala. Nenhuma. A Frequency Therapeutics demitiu a maior parte da equipe clínica e encerrou o programa.

Por que falhou? Duas hipóteses mais aceitas:

1. O problema epigenético. A cóclea de um rato neonatal e a cóclea de um adulto humano são organismos radicalmente diferentes. No mamífero adulto, os genes de desenvolvimento das células de suporte estão silenciados por camadas densas de metilação na cromatina — um bloqueio epigenético que não existia nos modelos animais usados nos testes. A metáfora mais precisa: é como tentar abrir uma porta não apenas trancada, mas soldada. As moléculas do FX-322 eram chaves para a fechadura, mas a porta já não tinha mais fechadura.

2. O problema da distribuição. A membrana da janela redonda, por onde o fármaco era injetado, tem permeabilidade variável entre indivíduos. Isso criava concentrações imprevisíveis na base da cóclea e praticamente zero de droga nos giros apicais. Parte do ouvido recebia demais; o resto não recebia nada.

Otonomy: três fracassos e a dissolução

A Otonomy apostou em três frentes simultâneas: OTO-413 (fator neurotrófico BDNF para perda auditiva oculta), OTO-313 (inibidor de receptores excitatórios para zumbido) e Otividex (esteroide intratimpânico para Ménière). Os três falharam ou tiveram problemas na Fase 2. O OTO-413 não mostrou ganho auditivo mensurável. O OTO-313 foi engolido por um efeito placebo massivo — um problema crônico em estudos de zumbido, onde a expectativa do paciente distorce os resultados. O Otividex não bateu o placebo na Ménière.

A empresa esgotou o caixa, demitiu a equipe e ela entrou em plano de dissolução. É um lembrete duro de que boas intenções e teses biológicas elegantes não sobrevivem sem dados clínicos reais.

A lição

Os fracassos do FX-322 e da Otonomy não são apenas curiosidades corporativas. Eles ensinam duas verdades que qualquer pessoa que acompanha a pesquisa em audição precisa internalizar:

Cóclea de rato não é cóclea humana. A distância entre um resultado brilhante in vitro e um resultado em paciente é um abismo. Sempre que alguém te mostrar uma manchete dizendo “cientistas regeneram células ciliadas”, a primeira pergunta deve ser: em que espécie? Se a resposta for “rato” ou “cultura de células”, o caminho até o consultório ainda é de anos ou décadas, e pode nunca chegar.

O efeito placebo é uma força brutal. Em doenças subjetivas como zumbido e em condições flutuantes como Ménière, o placebo pode melhorar 30–40% dos pacientes. Qualquer tratamento que não supere essa barreira é indistinguível de nada. É por isso que anedotas não substituem ensaios controlados.

Reflexão Final: A Cura da Surdez e O Que Fazer Enquanto o Futuro Não Chega

Eu sei o que acontece depois que um paciente lê sobre terapia gênica. Eu vejo isso toda semana. Os olhos brilham, a esperança renasce, e em alguns eu posso sentir as palavras invisíveis escapando do pensamento do paciente: “Então vou esperar”.

Esperar o quê?

A terapia gênica para otoferlina é uma conquista histórica — o primeiro passo concreto rumo à cura da surdez. Mas ela serve para uma condição genética rara e específica. Não há, hoje, nenhum tratamento biológico aprovado para a presbiacusia (perda auditiva da idade), para a surdez induzida por ruído, para a perda auditiva progressiva por otosclerose, para a surdez pós-meningite, para a ototoxicidade. Nenhum. E mesmo as frentes mais promissoras que descrevi nesta edição — Rinri, Ebselen, GJB2 — estão a anos de qualquer aprovação regulatória.

Enquanto isso, o cérebro não espera. A cada dia que passa com estímulo auditivo insuficiente, o córtex auditivo se reorganiza, o nervo auditivo enfraquece, e as habilidades cognitivas — memória, atenção, linguagem — deterioram. Isso não é especulação: é dado consolidado de décadas de pesquisa. A privação auditiva prolongada causa dano neurológico progressivo que é, em grande parte, irreversível.

A maior ironia da “cura da surdez” é que esperar por ela pode ser o que vai impedir que você se beneficie dela quando ela chegar. Porque o sucesso de qualquer terapia futura — seja gênica, celular ou farmacológica — depende de um sistema auditivo que ainda esteja minimamente funcional. Um cérebro que ficou décadas sem estímulo não é o mesmo cérebro que ficou estimulado por aparelho ou implante.

A mensagem que repito para meus pacientes: o melhor tratamento para a sua surdez é o que existe hoje, aplicado hoje. Aparelho auditivo, implante coclear, reabilitação fonoaudiológica — essas não são soluções de segunda classe enquanto se espera a cura. Essas são o tratamento. Elas mantêm o cérebro vivo, o nervo ativo e as conexões preservadas. E se amanhã surgir uma terapia biológica que se aplique ao seu caso, você estará em condições de se beneficiar dela. Quem esperou, talvez não esteja.

A esperança é legítima. A ciência da surdez está avançando em uma velocidade que eu nunca imaginei. Há 20 anos, nem nos meus sonhos mais secretos eu poderia imaginar que um dia poderia aplicar algum tratamento curativo para casos de surdez neurossensorial. Hoje eu acredito muito na possibilidade de poder oferecer isso aos meus pacientes antes de me aposentar. Mas a esperança passiva — a que paralisa, a que adia, a que convence o paciente a “esperar mais um pouco” — é tão destrutiva quanto a própria surdez.

Cuide da sua audição com o que existe. E fique atento ao que vem. Estou aqui para separar o sinal do ruído. É para isso que a Sinal/Ruído existe.

Recomendação de leitura

Se você é profissional de saúde e quer entender a base molecular da terapia gênica para otoferlina com o rigor do New England Journal of Medicine, a referência é o artigo original do programa DB-OTO, publicado no final de 2025. É leitura obrigatória para qualquer otorrino ou fonoaudiólogo que queira estar preparado para a conversa que seus pacientes vão trazer ao consultório.

Referência: Regeneron/Decibel Therapeutics. DB-OTO Gene Therapy for Inherited Deafness. N Engl J Med. 2025. Acesse aqui.

Para o leitor não-médico que quer entender o cenário geral de forma acessível, recomendo o artigo de revisão “OTOF Gene Therapy: From Breakthroughs to Roadmaps”, disponível gratuitamente no PubMed Central. Acesse aqui.

Referências citadas nesta edição

1. Regeneron/Decibel Therapeutics. DB-OTO Results in the New England Journal of Medicine Showcase Dramatic and Sustained Improvements in Hearing and Speech Perception in Children with Profound Genetic Hearing Loss. 2025. Acesse aqui

2. Lv J, et al. AAV1-hOTOF gene therapy for autosomal recessive deafness 9: a single-arm trial. Lancet. 2024. Acesse aqui

3. Sensorion. Corporate Presentation — AUDIOGENE SENS-501 Clinical Trial. Setembro 2025. Acesse aqui

4. Eli Lilly/Akouos. Positive Phase 1/2 Clinical Trial Data for AK-OTOF — ARO 2024 MidWinter Meeting. Acesse aqui

5. Rinri Therapeutics. First-in-human trial for regenerative cell therapy for sensorineural hearing loss approved. University of Sheffield, 2025. Acesse aqui

6. Sound Pharmaceuticals. Positive Phase 3 Results for the Treatment of Ménière’s Disease with SPI-1005. Acesse aqui

7. Sound Pharmaceuticals. FDA Breakthrough Therapy Designation for SPI-1005 to Treat Ménière’s Disease. Dezembro 2025. Acesse aqui

8. Frequency Therapeutics. Topline Results for Phase 2b Study of FX-322 for the Treatment of Sensorineural Hearing Loss. Acesse aqui

9. Otonomy’s Hearing Loss Drug Shows No Benefit in Trial. Journal for Clinical Studies. Acesse aqui

10. Otonomy plans to dissolve. BioPharma Dive. Acesse aqui

11. Sensorion. Unlocking The Potential Of Advanced Therapies For Hearing Loss — JPM Meeting Presentation. Janeiro 2026. Acesse aqui

12. AudioCure Pharma. Phase II Study Evaluating AC102 for Idiopathic Sudden Sensorineural Hearing Loss. Acesse aqui

Luciano Moreira


Leia também: Sinal/Ruído Edição 1 — Aparelhos Auditivos com Inteligência Artificial e a Batalha pela Fala no Ruído

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Dr. Luciano Moreira

CRM RJ 651923 • RQE Nº: 9780 • Especialista em Otologia

Médico otorrinolaringologista especializado em cirurgias da audição. Referência no Brasil em otosclerose e implante coclear. Atende no Rio de Janeiro e São Paulo.

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Dr. Luciano Moreira

CRM: 5265192-3

Médico otorrinolaringologista especializado em otologia e cirurgias da audição. Formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é membro da Academia Brasileira e Americana de Otorrinolaringologia.

Líder da Clínica Sonora, referência no tratamento de surdez, otosclerose e implante coclear. Atende pacientes de todo o Brasil e do exterior por telemedicina e presencialmente no Rio de Janeiro

Academia Brasileira de ORL

Academia Americana de ORL

Especialista em Otologia

Cirurgião de Implante Coclear

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