Você provavelmente já ouviu alguém dizer que “zumbido é espiritual” ou, pior ainda, recebeu a recomendação de tomar um suplemento natural milagroso para silenciar o barulho no seu ouvido. Como médico otorrinolaringologista dedicado à reabilitação auditiva, recebo diariamente pacientes no consultório que chegam frustrados após tentarem diversas alternativas sem sucesso. Entre as promessas mais comuns, o uso de Ginkgo Biloba para zumbido no ouvido ocupa o topo da lista.
Mas o que a ciência, baseada em estudos rigorosos e protocolos internacionais, realmente tem a dizer sobre isso? Será que essa planta milenar tem o poder de resolver um problema tão complexo quanto o zumbido no ouvido?
Neste post, vamos desmistificar o uso do Ginkgo Biloba e entender por que a busca por “atalhos” pode estar atrasando a sua volta ao mundo dos sons e a melhora da sua qualidade de vida.
O que é o Ginkgo Biloba?
O Ginkgo Biloba é um extrato derivado de uma das árvores mais antigas do mundo. Ele é amplamente comercializado sob a promessa de melhorar a circulação sanguínea, especialmente a microcirculação cerebral. Por essa razão, há décadas ele vem sendo prescrito e utilizado na tentativa de tratar tonturas, perdas auditivas súbitas e, claro, o zumbido.
A teoria por trás do uso de Ginkgo Biloba para zumbido é que, ao melhorar o fluxo de sangue na orelha interna (cóclea), as células ciliadas seriam melhor nutridas, reduzindo o sintoma. No entanto, a medicina moderna não trabalha com teorias isoladas, mas com evidências clínicas.
Ginkgo Biloba para zumbido no ouvido: O que dizem os grandes estudos?
A pergunta de um milhão de dólares é: funciona? Para responder, precisamos olhar para as revisões da Cochrane Library, que é o padrão-ouro da ciência mundial.
As revisões sistemáticas de diversos estudos clínicos controlados — onde um grupo recebe o extrato e outro recebe um placebo — mostram consistentemente que não há evidência de que o Ginkgo Biloba seja eficaz para o tratamento do zumbido na maioria esmagadora dos casos.
Quando analisamos grandes grupos de pacientes, o efeito do Ginkgo Biloba não é superior ao de uma pílula de farinha (placebo). Isso significa que, embora algumas pessoas relatem melhora, essa melhora geralmente está ligada ao efeito psicológico de achar estar sendo tratado ou a flutuações naturais do próprio zumbido, e não à substância em si.
Os perigos do Ginko Biloba para zumbido no ouvido por conta própria
Um dos maiores problemas que vejo, e que a Paula Pfeifer sempre reforça no portal Crônicas da Surdez, é o perigo da automedicação e do atraso no diagnóstico correto. O zumbido não é uma doença, mas um sintoma. Ele é um sinal de que algo não está funcionando como deveria.
Ao optar pelo uso de suplementos como o Ginkgo Biloba para zumbido sem orientação médica, o paciente corre dois riscos principais:
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Efeitos Colaterais: O Ginkgo Biloba possui propriedades anticoagulantes. Se usado por pessoas que já tomam medicamentos para o coração ou que possuem distúrbios de coagulação, ele pode causar hemorragias sérias.
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Omissão da Causa Real: Em cerca de 90% dos casos, o zumbido está associado a algum grau de perda auditiva, mesmo que leve. Enquanto você gasta tempo e dinheiro com suplementos, a sua privação auditiva pode estar piorando, levando ao isolamento social e até ao declínio cognitivo.
O Zumbido e a Reabilitação Auditiva
Como especialista em doenças do ouvido, meu foco é sempre a reabilitação auditiva. O zumbido é, muitas vezes, o cérebro tentando compensar a falta de estímulo sonoro. Quando você tem uma perda auditiva, o cérebro “aumenta o volume” do silêncio, gerando esse ruído fantasma.
A ciência demonstra que o tratamento mais eficaz para o zumbido associado à perda auditiva é o uso de aparelhos auditivos ou, em casos de surdez severa a profunda, o implante coclear. Essas tecnologias devolvem ao cérebro o som que ele deixou de ouvir, fazendo com que ele pare de “fabricar” o zumbido. É o que chamamos de enriquecimento sonoro.
No Clube dos Surdos Que Ouvem, você encontra grupos de apoio para quem convive com o zumbido causado por surdez.
Qual o caminho correto para quem tem zumbido?
Se você sofre com esse barulho e estava considerando comprar Ginkgo Biloba para zumbido no ouvido, meu conselho como médico é: pare e busque ciência.
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Exame de AUDIOMETRIA: É o primeiro passo fundamental. Precisamos saber como você está ouvindo.
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Investigação médica: Comece a investigação pelo médico otorrino experiente em surdez, pois 90% dos casos de zumbido são sintoma dela. Caso não tenha perda auditiva, o especialista irá lhe encaminhar para outro médico após detalhada anamnese.
Conclusão: Ciência sobre Suplementos
A ciência é clara: não existe pílula mágica para o zumbido. O uso de Ginkgo Biloba para zumbido carece de suporte científico robusto e não deve substituir uma investigação clínica detalhada.
A tecnologia auditiva hoje é maravilhosa e capaz de transformar vidas. Não perca tempo com soluções que não trazem resultados comprovados enquanto a vida lá fora está acontecendo e você está perdendo os sons que importam.
A sua audição merece o melhor que a ciência pode oferecer.
Dr. Luciano Moreira
Otorrinolaringologista
Fontes e Referências:
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Revisões Cochrane sobre Ginkgo Biloba e Tinnitus