Ontem escrevi um post sobre um artigo recém-publicado, mostrando o papel “protetor” do cérebro que  os aparelhos auditivos têm em quem precisa deles. Rapidamente choveram mensagens com dúvidas sobre os aparelhos. Está claro que a reabilitação auditiva através dos aparelhos pode melhorar a interação social, o desempenho escolar e profissional, fazendo com que os pacientes se relacionem com as pessoas e o meio ambiente de forma mais efetiva e menos sofrida. Entretanto, para os que têm perda de audição, foram avaliados por médicos e fonoaudiólogos e tiveram indicação de usar ou testar aparelhos, muitas dúvidas ainda permanecem. Procuro sintetizar aqui 6 coisas importantes que se deve ter em mente antes de partir para os aparelhos auditivos. A compreensão de cada um desses pontos ajuda a evitar decepções causadas por desconhecimento e melhorar a aderência ao tratamento.

  1. Aparelhos Auditivos não são como óculos: Aparelhos auditivos evoluem todos os dias. Sua tecnologia pode chegar a proporcionar aos usuários algumas capacidades que os ouvintes normais não têm, como transmissão do som sem fio e filtros de ruído para ambientes barulhentos. Entretanto, diferentemente dos óculos, eles não são capazes de corrigir a audição ao padrão normal. Para mais detalhes, leia esse texto no Crônicas da Surdez.
  2. Aparelhos Auditivos podem ser caros: Sim, vivemos no Brasil onde quase tudo é caro demais se comparado aos outros países. Embora aparelhos auditivos, especialmente os mais tecnológicos, sejam caros em todos os lugares, nós sempre acabamos pagando um pouco mais. Cotação do dólar, vendas em pequena escala, baixa concorrência, existem muitas explicações possíveis para esse fenômeno e ele extrapola meus conhecimentos econômicos, mas o fato é que para se comprar bons aparelhos auditivos hoje no Brasil, é preciso gastar um bom dinheiro e nem sempre isso é possível. Uma coisa muito importante quando se avalia preço é que você deve encarar seu aparelho mais como um serviço contínuo (uma assinatura), do que como uma compra, já que você sempre precisará da assistência dos fonoaudiólogos da empresa. Não compre aparelhos sem testá-los o tempo suficiente para que os conheça, ou se você não se sentiu bem atendido ou à vontade. Na dúvida, procure outro serviço e compare todos os aspectos.
  3. Aparelhos Auditivos podem ser gratuitos: Sim, temos no Brasil um programa de adaptação gratuita de aparelhos auditivos, bancado pelo governo, (ou pelo contribuinte, se preferir). O programa de saúde auditiva está espalhado principalmente pelas grandes e médias cidades em todo o país. Infelizmente essa distribuição não é uniforme e nem sempre obedece critérios técnicos, mas existem vários centros que funcionam muito bem. Como a maioria dos serviços de saúde vinculados ao SUS, a realidade é bem diferente da medicina do sistema complementar e privada. Longas filas para atendimento e longa espera para receber aparelhos podem acontecer, embora isso varie muito de centro para centro. Além disso, é raro que os aparelhos disponíveis no SUS tenham a última tecnologia. Apesar dessas dificuldades, milhares de brasileiros se beneficiam todos os anos do programa de saúde auditiva com aparelhos gratuitos.
  4. Aparelhos Auditivos dão defeito e têm vida útil: Aparelhos celulares, tablets, e eletrodomésticos não duram para sempre, e com alguma frequência quebram ou dão defeito. Precisam de pilhas para funcionar e elas acabam, muitas vezes na hora em que não deveriam. Com os aparelhos auditivos não é diferente. Para o que não tem solução, resta o cuidado, comprometimento e o conhecimento do usuário. Você precisará tratar seu aparelho com carinho, ou como seu melhor amigo, seguir as orientações do fabricante nos cuidados de limpeza e desumidificação, guarda-los sempre em local seguro e conhecido e ter sempre pilhas extras à mão. Dessa maneira eles poderão te acompanhar por muitos anos e serão “eternos enquanto durarem” :). Quase sempre, seja pela progressão da perda auditiva ou pelo desgaste natural do tempo, chegará o dia de trocá-los por outros melhores e com mais recursos.
  5. Aparelhos Auditivos não são invisíveis. Nem devem ser: Isso eu aprendi com a Paula, quando ela diz “Não dá pra disfarçar o indisfarçável”.  Apesar de entender que aparelhos auditivos não devem ser necessariamente feios e podem ser discretos ou até bonitos, não dá concordar com a filosofia do “invisível acima de tudo”. Profissionais e empresas que exageram no foco da invisibilidade estão sabotando a causa da reabilitação auditiva, que deveriam defender antes de tudo. Trata-se de um tiro no próprio pé. Muito mais efetivo é estimular o orgulho e a autoestima de quem usa e quer mostrar seus aparelhos. Veja que bonito isso!
  6. Adquira seus Aparelhos Auditivos no Brasil: Muitos pacientes e familiares me questionam sobre a possibilidade de comprar aparelhos fora do país, especialmente nos EUA. Como já falamos, os preços dos aparelhos por lá são bem mais atraentes, como de quase tudo mais. Infelizmente essa não é uma boa ideia e o barato pode acabar saindo caro. Aparelhos auditivos precisam de manutenção e ajustes com frequência e esse serviço quase sempre é prestado pelo fonoaudiólogo que participou da venda. Além disso eles são vendidos com uma garantia que só é válida no país em que foram adquiridos. Portanto, a menos que você tenha residência fora do país e possa ser acompanhado por lá, procure adquirir aparelhos o mais perto possível de onde mora.