Colesteatoma congênito e colesteatoma na criança, o guia para os pais

Médico examina o ouvido de uma criança com endoscópio rígido, com a imagem do tímpano no monitor
Neste artigo você vai aprender:

Resposta rápida

Colesteatoma é uma bolsa de pele que cresce dentro do ouvido, no lugar errado, e vai corroendo o que encontra pela frente [1]. Na criança ele aparece de dois jeitos. O congênito já nasce com a criança. É uma "perolazinha" branca que fica atrás de um tímpano fechado, sem que a criança tenha tido furo ou secreção alguma vez [2]. O adquirido surge depois, ligado a otites de repetição e ao mau funcionamento da tuba, o canal que liga o ouvido médio ao nariz [1][2]. Nos dois casos a doença é benigna, não é câncer, mas cresce e precisa de cirurgia [1]. Na criança ela costuma ser mais agressiva e voltar mais do que no adulto, e por isso o acompanhamento depois da cirurgia é mais rigoroso [1][3].

O que é o colesteatoma congênito

O colesteatoma congênito começa antes do nascimento. Durante a formação do bebê, um pequeno resto de pele fica preso atrás do tímpano, num ponto onde ele deveria ter desaparecido por volta da 33ª semana de gestação [2]. Quando esse resto não some, ele vira uma bolinha de pele que cresce devagar ao longo dos anos [2]. É daí que vem a ideia de "perolazinha". No exame, ela aparece como uma bolinha branca, cor de pérola, atrás de um tímpano inteiro [2]. A criança nunca teve furo no tímpano nem secreção no ouvido, e mesmo assim a bolinha está lá [2]. O ponto mais comum onde ela surge é a parte da frente e de cima do tímpano, o chamado quadrante ântero-superior [2]. Saber disso ajuda o otorrino a procurar no lugar certo. Para entender a doença por dentro, veja o que é o colesteatoma.

Como o congênito é descoberto, muitas vezes por acaso

Boa parte dos colesteatomas congênitos é encontrada por acaso [2]. A criança pequena não sabe dizer que ouve menos de um lado. Ela escuta bem do outro ouvido, e por isso a perda de um lado passa despercebida [2]. A bolinha vai crescendo em silêncio, sem dor e sem secreção, até que alguém a enxerga num exame de rotina do ouvido [2]. No consultório, nós olhamos o tímpano de perto com o endoscópio, uma câmera fina que mostra a membrana em detalhe. É assim que a perolazinha branca costuma ser flagrada, às vezes numa consulta marcada por outro motivo.

Existe uma forma de medir o quanto a doença avançou, o estadiamento de Potsic. Ele vai do estágio I, quando a bolinha está limitada a um só canto do tímpano, até o estágio IV, quando ela já entrou na mastoide, o osso atrás da orelha [4]. Não é um número que prevê o futuro, é apenas uma régua de quão longe a doença chegou. Quanto mais cedo se descobre, menor tende a ser a cirurgia.

O colesteatoma adquirido na criança

O outro tipo é o colesteatoma adquirido. Ele não nasce com a criança, aparece com o tempo [2]. A causa mais comum é o mau funcionamento da tuba auditiva, o canal que liga o ouvido médio ao nariz e equilibra a pressão lá dentro [2]. Na criança esse canal é mais curto e mais horizontal, e trabalha pior. Somam-se a isso as otites de repetição e a adenoide aumentada, que atrapalham ainda mais a ventilação do ouvido. Sem ar suficiente, o tímpano é sugado para dentro e forma uma dobra, chamada de bolsa de retração [1]. Essa dobra acumula pele velha que não consegue sair, e com o tempo vira um colesteatoma [1]. Por isso a criança que vive com otite e ouvido entupido merece atenção redobrada do otorrino.

Por que na criança é mais agressivo e volta mais

O colesteatoma na criança costuma ser mais agressivo do que no adulto [3]., alcançando mais estruturas antes de ser descoberta [3]. E ela volta com mais frequência depois da cirurgia [3]. Um estudo mostrou que, cinco anos depois da primeira operação, a chance de o colesteatoma voltar é cerca de 2,6 vezes maior na criança do que no adulto, 38% contra 14% [1]. Isso não é para assustar. É para explicar por que a criança precisa de um cuidado mais de perto, antes e depois da cirurgia. O porquê de a doença poder voltar está detalhado em o colesteatoma pode voltar.

Os sinais que os pais podem notar

O congênito e o adquirido dão pistas diferentes, e conhecê-las ajuda os pais a procurar ajuda cedo.

Tipo Como costuma se comportar O que os pais podem notar
Congênito Bolinha branca atrás de um tímpano fechado, sem furo e sem secreção [2] Perda de audição de um lado que passa despercebida; muitas vezes achado de exame [2]
Adquirido Ligado a otite de repetição e ouvido mal ventilado [1][2] Secreção com cheiro ruim que volta e não sara com remédio; perda de audição do lado afetado [1]

Alguns sinais merecem uma consulta com o otorrino. Uma secreção com cheiro ruim que sai do ouvido, volta sempre e não melhora com remédio é um alerta [1]. Uma perda de audição que aparece só de um lado é outro [1]. A criança pode "não responder" quando é chamada daquele lado, virar sempre a cabeça para ouvir melhor, ou aumentar o volume da televisão. Como ela ouve bem do outro ouvido, esses sinais passam batido por meses [2]. Vale confiar na sua observação de pai ou mãe. Se algo no ouvido da criança não parece certo, é melhor examinar.

Por que tratar não pode esperar

O colesteatoma é uma doença benigna, mas não é inofensiva [1]. Ele não vira câncer, e ainda assim cresce e corrói o que encontra pela frente, inclusive os ossinhos que conduzem o som e o osso ao redor [1]. Quando ele toca esses ossinhos, o som chega abafado. Essa perda é mecânica, chamada de condutiva, porque a corrente que transmite o som está interrompida, e não porque o ouvido interno parou de funcionar. Na criança há um agravante. A doença cresce justamente nos anos em que ela aprende a ouvir e a falar. Um ouvido que ouve mal por muito tempo nessa fase pode atrapalhar a linguagem e o aprendizado. Tratar cedo protege a audição e o desenvolvimento. E não existe remédio que resolva o colesteatoma [1]. A única forma de tirá-lo é a cirurgia.

Como é a cirurgia na criança e o acompanhamento

A cirurgia tem um objetivo claro, tirar toda a bolsa de pele e deixar o ouvido seco e seguro [1]. Nós trabalhamos com um microscópio ou um endoscópio, dependendo da parte do ouvido em que ele está. Os equipamentos ampliam a visão da região e nos deixam alcançar os cantos onde o colesteatoma pode ter se escondido [1]. Em muitos casos, entramos também pelo osso atrás da orelha para limpar a doença por dentro, uma operação chamada timpanomastoidectomia, explicada em a timpanomastoidectomia. Os detalhes de como a doença é retirada estão em a cirurgia para remover o colesteatoma.

Na criança, o acompanhamento depois da cirurgia é mais rigoroso [1]. Como a doença volta mais nessa idade, podemos indicar uma revisão de segurança entre 6 e 12 meses, chamada de "second look", ou um tipo específico de ressonância que enxerga colesteatoma escondido [1]. Sumir do acompanhamento é o maior erro que se pode cometer, ainda mais numa criança. O risco de retorno e como ele é vigiado estão em o colesteatoma pode voltar.

Nota pessoal: Como otorrino com atuação dedicada à cirurgia do ouvido, vejo os pais chegarem com frequência trazendo o mesmo medo, o de que seja câncer. Não é. O colesteatoma da criança é uma doença benigna, mas que cresce e precisa ser retirada. Costumo dizer que a nossa pressa não é com a bolinha em si, é com o tempo. Na criança, cada ano conta para a audição e para a fala. Por isso opero cedo quando há indicação e acompanho de perto depois, porque nessa idade a doença volta mais. Quando e como operar eu fecho caso a caso, com os exames na mão e depois de examinar o ouvido da criança de perto.

Antes de decidir

O colesteatoma da criança exige exame físico presencial antes de qualquer decisão [1]. Olhar o tímpano de perto, com otoscopia e com o endoscópio, não se faz à distância, e numa criança isso vale ainda mais, porque o exame pede paciência e jeito. Uma consulta on-line pode servir como triagem inicial ou como uma segunda opinião preliminar, para orientar os pais e organizar os exames. A decisão sobre a cirurgia precisa do exame no consultório.

Se você desconfia de colesteatoma no ouvido do seu filho, comece pela página sobre o que é o colesteatoma e veja o panorama do tema em o colesteatoma.

O Dr. Luciano Moreira atende pacientes com perda auditiva do mundo inteiro através da Telemedicina. Para marcar sua consulta, clique aqui.

Referências

  1. Kennedy KL, Singh AK. Middle Ear Cholesteatoma. StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024. NBK448108
  2. Castle JT. Cholesteatoma Pearls: Practical Points and Update. Head Neck Pathol. 2018;12(3):419–429. PMC6081285
  3. Lynrah ZA, Bakshi J, Panda NK, Khandelwal NK. Aggressiveness of Pediatric Cholesteatoma. Do We Have an Evidence? Indian J Otolaryngol Head Neck Surg. 2012;65(3):264–268. PMC3696163
  4. Körmendy KB, et al. Predicting residual cholesteatoma with the Potsic staging system still lacks evidence: a systematic review and meta-analysis. Eur Arch Otorhinolaryngol. 2024;281(7):3557–3568. PMC11211107
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Dr. Luciano Moreira

CRM-RJ 52.65192-3 • RQE 9780 • Otorrinolaringologista

Médico otorrinolaringologista com atuação dedicada à cirurgia do ouvido, à otosclerose e ao implante coclear. Residência na UERJ e estágio em cirurgia do ouvido na Fundação Georges Portmann, em Bordeaux, na França. Atende em Copacabana pacientes de todas as regiões do Brasil.

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Dr. Luciano Moreira

CRM-RJ 52.65192-3 · RQE 9780

Médico otorrinolaringologista com atuação dedicada às cirurgias da audição. Formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é membro da Academia Brasileira e Americana de Otorrinolaringologia.

Médico da Equipe SONORA, com atuação dedicada à cirurgia do ouvido, à otosclerose e ao implante coclear. Atende em Copacabana, no Rio de Janeiro, pacientes de todas as regiões do Brasil

Academia Brasileira de ORL

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Cirurgia do ouvido

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