Colesteatoma, o pós-operatório no ouvido e o que esperar na recuperação

Neste artigo você vai aprender:

Resposta rápida

A cirurgia do colesteatoma limpa o ouvido médio e a mastoide (o osso atrás da orelha). O pós-operatório costuma ser tranquilo, mas o ouvido leva semanas para cicatrizar completamente. Nos primeiros dias há um curativo na cabeça, pode haver dor leve e, às vezes, um pouco de tontura. Depois, o ouvido fica tampado por causa do tampão interno, e é normal um pouco de secreção com sangue. O paladar de um lado da língua pode mudar e costuma voltar ao normal em dias ou poucas semanas. A audição pode ficar pior antes de melhorar, e o resultado depende de como o ouvido foi reconstruído. Alguns sinais pedem contato com o cirurgião sem esperar: febre, rosto fraco de um lado, tontura forte que não passa, secreção com mau cheiro e dor que só aumenta. O seguimento dura anos, porque o colesteatoma pode voltar.

O que esperar no pós-operatório do colesteatoma

O colesteatoma é uma bolsa de pele que cresce onde não devia, dentro do ouvido médio, e vai corroendo a estrutura por perto. A cirurgia retira essa pele por completo e limpa a área. Para entender a doença por dentro, veja o que é o colesteatoma. O que muda de uma cirurgia de ouvido mais simples é o tamanho do trabalho, quase sempre é preciso abrir a mastoide, a chamada timpanomastoidectomia.

Na maioria dos casos a alta é rápida, muitas vezes no mesmo dia ou no dia seguinte [1]. Você sai com um curativo em volta da cabeça, que protege a região e recolhe a drenagem. Esse curativo de fora costuma sair em dois ou três dias [2][5]. Dentro do canal do ouvido fica um tampão, um material que absorve o sangue e ajuda a cicatrizar. Ele não deve ser mexido.

Nos primeiros dias é comum sentir dor no ouvido e atrás da orelha, controlada com o remédio que o cirurgião prescreve. Um pouco de tontura também pode aparecer, em parte por causa do próprio tampão dentro do ouvido [4]. Essa tontura leve dos primeiros dias costuma ceder sozinha.

As primeiras semanas, ouvido tampado, secreção e gosto na língua

Passados os primeiros dias, o que mais incomoda é a sensação de ouvido tampado. Isso acontece porque o tampão interno ainda está no lugar e a região está inchada da cicatrização. Ouvir abafado desse lado, nesse período, é o esperado, e não quer dizer que a cirurgia falhou. O tampão vai se dissolvendo aos poucos, e a parte que sobra o cirurgião retira num retorno, em geral algumas semanas depois [5].

É normal ver secreção com sangue saindo do ouvido por até uma semana [6]. Pode aparecer também um pedacinho escuro do próprio tampão. Não tente recolocar nem puxar o resto que ainda está no canal [6]. A limpeza da parte de fora, quando precisa, é combinada com a equipe.

Um detalhe pega muita gente de surpresa. O gosto de um lado da língua pode ficar diferente, metálico ou mais fraco. Isso tem explicação. Um nervo fino do paladar, chamado corda do tímpano, passa bem dentro do ouvido médio, no meio da área operada, e a cirurgia às vezes o estica ou precisa afastá-lo [1]. Na maioria das pessoas esse gosto estranho melhora ao longo das primeiras semanas. Num estudo com pacientes operados do ouvido, a queixa de gosto alterado caía de cerca de 43% aos dez dias para 23% aos quatro meses e 9% em um ano [3].

Quanto tempo dura a recuperação

Não existe um número único de dias que sirva para todo mundo, porque depende do tamanho da cirurgia e de como cada ouvido responde. Dá para separar em fases. As atividades leves do dia a dia costumam voltar em uma a duas semanas [5]. O tampão interno leva de duas a quatro semanas para se dissolver ou ser retirado no retorno [5]. A cicatrização mais completa da região se dá ao longo de semanas.

A audição é a parte que mais demora a mostrar o resultado final, porque só firma quando o ouvido desincha e o tampão sai. Por isso o cirurgião evita cravar conclusões nas primeiras consultas e deixa a leitura final para a audiometria de controle, feita mais adiante. Cada pessoa tem o seu tempo, e comparar a sua recuperação com a de outra pessoa quase sempre gera aflição à toa.

Nota pessoal: como otorrino com atuação dedicada à cirurgia do ouvido, oriento cada paciente a ter paciência nas primeiras semanas. Sair da cirurgia ouvindo abafado, com o ouvido tampado e às vezes com um gosto diferente na língua, faz parte do caminho e costuma melhorar aos poucos. Eu acompanho essa evolução de perto. Prefiro tirar conclusões sobre a audição quando o ouvido já está recuperado, e não nas primeiras semanas.

O que é normal e o que é sinal de alerta

Saber separar o esperado do preocupante evita tanto o susto desnecessário quanto a demora perigosa.

Fazem parte da recuperação normal o ouvido tampado, o abafamento desse lado, a secreção com sangue por alguns dias, um pouco de dor que vai cedendo, tontura leve nos primeiros dias e o gosto alterado na língua. São sensações que tendem a diminuir com o passar dos dias.

Outros sinais fogem do esperado e pedem contato com o cirurgião sem esperar o próximo retorno. Febre [4][5][6]. Fraqueza ou desvio de um lado do rosto [1][2]. Tontura forte, com o mundo girando, que não passa [2][4]. Secreção com mau cheiro saindo do ouvido [6]. Dor que, em vez de melhorar, só aumenta [6]. Diante de qualquer um desses, é melhor avisar a equipe do que ficar esperando em casa.

O que costuma ser normal O que é sinal de alerta
Ouvido tampado e som abafado desse lado Piora súbita ou perda da audição no ouvido operado
Secreção com sangue por alguns dias Secreção com mau cheiro saindo do ouvido
Dor que vai cedendo com o remédio Dor que só aumenta com o passar dos dias
Tontura leve nos primeiros dias Tontura forte, girando, que não passa
Gosto diferente de um lado da língua Febre, ou fraqueza de um lado do rosto

O que não pode fazer depois da cirurgia

A regra que vale para quase tudo nas primeiras semanas é proteger o ouvido de água e de pressão. O restante é bom senso.

Água no ouvido é o primeiro cuidado. Enquanto o ouvido cicatriza, ele precisa ficar seco, porque água no canal pode contaminar a área operada [1][6]. No banho, o cirurgião costuma liberar depois dos primeiros dias, com o ouvido protegido por um algodão com vaselina na entrada do canal, sem empurrar nada para dentro [5][6]. Para lavar o cabelo, a mesma proteção. Nadar fica proibido até o cirurgião liberar, já com o ouvido cicatrizado [5].

Esforço físico e pressão vêm logo depois. Pegar peso, fazer força e exercício pesado devem esperar, porque aumentam a pressão dentro da cabeça e do ouvido, bem na fase em que a área está cicatrizando [5]. Não assoe o nariz com força, porque o ar empurrado pode subir até o ouvido. Se precisar espirrar, faça de boca aberta, para aliviar a pressão [6].

Avião e mergulho merecem uma palavra à parte, porque envolvem mudança de pressão. Não há um prazo fixo válido para todos. Um estudo com pacientes operados do tímpano mostrou que voar cedo não prejudicou a cicatrização de forma relevante, o que sugere que a proibição rígida de meses não se sustenta [7]. Ainda assim, quando voar depois da cirurgia do colesteatoma depende do tamanho do trabalho no seu ouvido, e nós estipulamos esse prazo caso a caso. O mergulho, que leva o ouvido a pressões maiores, fica para mais tarde, também com liberação.

A volta ao trabalho segue a mesma lógica. Trabalho de escritório costuma voltar por volta de 7 a 10 dias, antes do que trabalho braçal, que pega peso ou expõe a ruído. O afastamento é combinado na consulta, de acordo com a sua atividade.

Quando a audição volta depois da cirurgia

A resposta exige separar duas coisas. O primeiro objetivo da cirurgia do colesteatoma é retirar a doença por completo e deixar o ouvido seguro. A audição é o segundo objetivo, e nem sempre melhora de imediato.

É importante saber que a audição pode ficar pior antes de melhorar, e às vezes pode não melhorar tanto quanto se gostaria [1]. Isso porque o colesteatoma costuma destruir os ossinhos que conduzem o som dentro do ouvido médio. Quando isso acontece, a perda é de condução, ligada a essa parte mecânica, e não do nervo. Recuperar essa audição depende de reconstruir a corrente de ossinhos, o que pode ser feito na mesma cirurgia ou numa segunda etapa, mais adiante, quando o ouvido já está limpo e curado [1]. Nenhum cirurgião pode prometer um resultado exato aqui, porque ele depende do estrago que a doença já tinha feito e da resposta de cada ouvido.

Quem fica com o ouvido reconstruído numa técnica que preserva a parede do canal tende a ter uma audição melhor, mas com um risco um pouco maior de o colesteatoma voltar [1]. Quem precisa da técnica que abre a cavidade troca parte desse ganho por mais segurança contra a volta da doença. Essa escolha é do cirurgião, caso a caso, e está detalhada na página sobre a cirurgia para remover o colesteatoma. A palavra final sobre a audição vem da audiometria de controle, feita quando o ouvido já assentou.

Cavidade aberta, a limpeza que continua pela vida

Em parte dos casos, quando a doença é grande, o cirurgião opta por retirar a parede de trás do canal do ouvido e transformar a mastoide em uma cavidade única e aberta [2]. Isso deixa a área toda visível, o que ajuda a controlar a doença, mas cria uma rotina para a vida.

Uma cavidade dessas precisa de limpezas periódicas no consultório, feitas com microscópio, porque ela junta cera e pele descamada que não saem sozinhas [1][2]. Não é motivo para alarme, é manutenção. Quem tem cavidade aberta também precisa de mais cuidado com água, porque ela não tolera bem a umidade [1]. Esse acompanhamento com limpezas de tempos em tempos costuma continuar por muitos anos, na prática, pela vida. Os detalhes de como a mastoide é trabalhada estão na página sobre a mastoidectomia.

Por que o seguimento dura anos

Retirar o colesteatoma não encerra a história. Ele pode voltar, seja porque sobrou um pedacinho microscópico de pele, seja porque uma nova bolsa se forma com o tempo. Por isso o seguimento é longo, e não um capricho.

Muitos cirurgiões programam uma revisão do ouvido entre seis e doze meses depois, para conferir se não sobrou nada, seja com uma nova cirurgia de checagem, seja com uma ressonância magnética preparada para achar colesteatoma [1]. Esse controle por imagem costuma se estender por pelo menos cinco anos, porque a doença pode reaparecer tarde, anos depois da cirurgia [4]. O risco de voltar é maior em crianças do que em adultos [1]. Tudo isso é o motivo pelo qual o retorno regular importa tanto, e está detalhado na página sobre quando o colesteatoma pode voltar.

Nota pessoal: costumo dizer aos pacientes que a alta da cirurgia não é a alta da doença. O colesteatoma exige acompanhamento por anos, com retornos e, quando indicado, exames de imagem. Não é para assustar, é para pegar cedo qualquer sinal de que a doença esteja tentando voltar. Uma dúvida pontual dá para conversar à distância, mas avaliar o ouvido operado é presencial, porque preciso olhar dentro e, muitas vezes, aspirar o ouvido para ver o que está acontecendo.

Chamada

Se você vai operar e quer entender o pós-operatório com antecedência, ou já operou e tem dúvidas sobre a sua recuperação, vale começar pela página sobre a cirurgia para remover o colesteatoma e pela visão geral do colesteatoma. Uma dúvida rápida pode ser conversada por teleconsulta, que serve para triagem e orientação, mas a avaliação do ouvido operado é sempre presencial, porque exige olhar e, muitas vezes, aspirar o ouvido.

O Dr. Luciano Moreira atende pacientes com perda auditiva do mundo inteiro através da Telemedicina. Para marcar sua consulta, clique aqui.

Referências

  1. Kennedy KL, Singh AK. Middle Ear Cholesteatoma. StatPearls. Última atualização 9 ago 2024. NBK448108
  2. Kennedy KL, Lin JW. Mastoidectomy. StatPearls. Última atualização 29 mai 2023. NBK559153
  3. Lafargue A, et al. Taste Disorders After Middle Ear Surgery: Chorda Tympani Nerve Injury and Quality of Life. Otolaryngol Head Neck Surg. 2024. PMC11605009
  4. van Egmond SL, et al. Optimal Duration of MRI Follow-up to Safely Identify Middle Ear Residual Cholesteatoma. AJNR Am J Neuroradiol. 2021;42(7):1313. PMC8324276
  5. University of North Carolina, Department of Otolaryngology. Discharge Instructions — Tympanoplasty/Tympanomastoidectomy. (Orientação a pacientes.) PDF
  6. Nationwide Children's Hospital. Ear Surgery: Care after Tympanoplasty and/or Mastoidectomy. (Orientação a pacientes.) Página
  7. Konishi M, Sivalingam S, Shin SH, Vitullo F, Falcioni M. Effects of early commercial air travel on graft healing rates after tympanoplasty. Ann Otol Rhinol Laryngol. 2012. PMID 22397220
Foto de Dr. Luciano Moreira
Dr. Luciano Moreira

CRM RJ 651923 • RQE Nº: 9780 • Especialista em Otologia

Médico otorrinolaringologista especializado em cirurgias da audição. Referência no Brasil em otosclerose e implante coclear. Atende no Rio de Janeiro e São Paulo.

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Dr. Luciano Moreira

CRM: 5265192-3

Médico otorrinolaringologista especializado em otologia e cirurgias da audição. Formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é membro da Academia Brasileira e Americana de Otorrinolaringologia.

Líder da Clínica Sonora, referência no tratamento de surdez, otosclerose e implante coclear. Atende pacientes de todo o Brasil e do exterior por telemedicina e presencialmente no Rio de Janeiro

Academia Brasileira de ORL

Academia Americana de ORL

Especialista em Otologia

Cirurgião de Implante Coclear

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