A História do Implante Coclear

cochlear implant historyA HISTÓRIA DO IMPLANTE COCLEAR

“Sem saber que era impossível,  foi lá e fez.” – Jean Cocteau

Ao adentrar na fascinante história do implante coclear (IC), encontrei-me deliciosamente perdido em um labirinto de datas, fatos, artigos científicos, especulações, curiosidades, discórdias e dramas. Muitos dramas…

Ao longo das próximas 5 semanas essa é a história que pretendo rever e relatar aqui sob minha ótica pessoal, dividida em 5 fases. Cada fase, numerada de I a V, será publicada sempre nas quartas-feiras à noite, sendo a primeira hoje e a última dia 05/04. Essa história vem complementar o Guia Online do Implante Coclear para pacientes e familiares, campeão de acessos do Portal Otorrino há mais de um ano.

A criação de um dispositivo eletrônico dedicado a restaurar audição em surdos já é um fato suficientemente fantástico. Transforma-lo em tecnologia aplicada envolveu as inevitáveis questões éticas inerentes à pesquisa médica experimental em seres humanos, além de barreiras culturais e políticas, estas últimas menos óbvias ao primeiro olhar.

A faceta multidisciplinar dessa jornada também não pode ser esquecida. Descobertas realizadas inteiramente “dentro” de uma ciência como a física, matemática ou astronomia costumam acontecer pela colaboração de especialistas que dominam uma mesma “linguagem”. Já a criação de um dispositivo com o propósito e a complexidade tecnológica do IC  só foi possível graças ao trabalho (nem sempre entrosado) de médicos, psicólogos, audiologistas, terapeutas de fala, patologistas, fisiologistas, físicos, químicos e engenheiros.

Como outros grandes feitos da ciência, o advento do implante coclear foi fruto do trabalho de pessoas que acreditaram no que então parecia impossível. Em 1977, observadores britânicos liderados por John Ballantyne foram enviados aos EUA como observadores, com a missão de avaliar o estágio do desenvolvimento nos IC. As informações colhidas seriam importantes para que os órgãos de saúde ingleses decidissem se haveria interesse de investir na ainda incipiente tecnologia. O tamanho do desafio àquela altura pode ser bem avaliado nesse trecho do relatório publicado por eles em 1978:

“A estimulação artificial do sistema auditivo daqui pra frente enfrenta sérias dificuldades para cirurgiões, engenheiros, psicólogos, terapeutas da fala, audiologistas e patologistas. Como conseguir a seletividade adequada para o estímulo neural com mínima invasividade cirúrgica; como desenvolver eletrodos biocompatíveis e confiáveis, sistemas de transmissão e padrões corretos de tempo e espaço para a estimulação, como codificar os estímulos da melhor maneira e sem apresentar mais risco de lesão do sistema nervoso; como explorar quais pistas auditivas são proporcionadas aos pacientes, como investigar o número e a localização dos neurônios da região.”

Em alguns momentos dessa história surgiram divergências entre os protagonistas. Uma delas permeou a década de 70 até o início dos anos 80. De um lado, cirurgiões pioneiros pressionados por pacientes infelizes com sua surdez – Nos anos 70, a surdez sensorioneural era considerada irrecuperável. De outro, cientistas ligados às universidades: médicos, audiologistas, engenheiros e fisiologistas que, por considerarem não haver conhecimento técnico suficiente, julgavam a intenção de implantar seres humanos prematura, ou  mesmo “irresponsável”.

Nesse embate entre a medicina clínica e a academia, acabou vencendo a moral embutida na frase do ensaísta francês Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez“.

Em 1973, o holandês radicado nos EUA Willem Johan Kolff, inventor do rim artificial (para hemodiálise), foi questionado sobre o fato de que, passados 30 anos da sua invenção, o rim artificial ainda não era totalmente compreendido.

“Se eu tivesse me preocupado em como ele funcionava, eu ainda estaria estudando o transporte nas membranas de celofane, ao invés de ter construído o primeiro rim artificial”

Com o IC não foi muito diferente. Assim como o rim artificial para seu criador, ainda hoje é surpreendente, mesmo para os profissionais mais experientes, que o IC funcione tão bem.

O advento do IC também ajudou a proporcionar uma compreensão mais detalhada da eletrofisiologia da audição e da surdez.  A grandiosidade do feito fica ainda mais evidente nos deter-nos a esse trecho da carta-testamento redigida por Ludwig van Beethoveen em 1808, quando em profunda depressão decorrente da surdez, pediu que fosse lida por seus irmão apenas após sua morte:

“… É impossível para mim relaxar em sociedade; sem conversas refinadas, sem confidencias. Eu preciso viver sozinho, convivendo com a sociedade apenas em caso de necessidade extrema. … Essas experiências quase me fizeram desesperar e eu cheguei ao ponto de querer desistir de viver  – a única coisa que me segurou foi minha arte. .. E assim eu tenho me arrastado na minha miserável existência”.

Para meus colegas médicos e fonoaudiólogos ligados ao implante coclear, acredito que possam encontrar aqui um ou outro fato que ainda não conheçam, ou quem sabe uma visão diferente dos mesmos.

Estudantes de medicina,  fonoaudiologia e profissionais em formação raramente se interessam por aspectos históricos, dada sua juventude e sua vontade premente de “atuar”. Entretanto acredito que a perspectiva aqui exposta possa ajudar a embutir-lhes a coragem dos desbravadores. Como veremos em detalhes mais adiante, um dos mais importantes pioneiros do implante coclear, Dr. William House de Los Angeles, decidiu que precisava desenvolver um tratamento para recuperar a audição de seus pacientes estando apenas no seu segundo ano de atividade como médico!

Aos meus pacientes e a todos os que sofrem com a surdez em algum grau, esse texto pode ajudar a lembra-los que por trás de um aparelho auditivo e de um implante coclear existe o trabalho secular e contínuo de muitos pesquisadores. Muitos deles também viviam seus dramas e dificuldades enquanto desenvolviam as soluções disponíveis hoje.

Mais o que isso, esse texto é uma homenagem aos pioneiros: Médicos, terapeutas e pacientes que transformaram não só suas vidas mas a de de centenas de milhares de pacientes ao redor do mundo que agora podem se beneficiar da tecnologia do implante coclear.

O resto é história…

Fase I – A Cóclea é Elétrica (1748-1940)  – no ar!

Fase II – As Primeiras Cirurgias (1957-1964) – no ar!

Fase III – Aceitação do Implante Coclear (1967-1984) – no ar!

Fase IV – O Implante Coclear Multicanal (1985-2000)– em construção até 29/03/2017

Fase V – O Crescimento das Indicações (2001-2017)  – em construção até 05/04/2017