O que é a timpanomastoidectomia, a cirurgia do ouvido

Neste artigo você vai aprender:

Resposta rápida

A timpanomastoidectomia é uma cirurgia do ouvido que junta dois trabalhos numa só operação. Ela limpa a doença de dentro do osso atrás da orelha, a mastoide, e reconstrói o tímpano, a membrana que fecha o ouvido médio [1]. É a cirurgia usada para tirar o colesteatoma, uma "bolsa de pele" que cresce dentro do ouvido e corrói o que encontra pela frente [1]. Também é usada em casos de otite média crônica, uma inflamação que não passa. O nome pode parecer estranho, mas descreve o que é feito. "Timpano" é o tímpano, "mastoid" é a mastoide, "ectomia" é retirar.

O que é a timpanomastoidectomia

A palavra é grande porque descreve duas etapas na mesma cirurgia. A primeira é a mastoidectomia. Nós abrimos o osso atrás da orelha, usando brocas num motor semelhante ao dos dentistas. A mastoide está cheia de pequenos espaços de ar como uma esponja, e precisamos remover a doença de dentro deles [2]. A segunda é a timpanoplastia, o conserto do tímpano e, quando preciso, dos ossinhos que ficam atrás dele [1][3]. As duas juntas formam a timpanomastoidectomia.

O acesso costuma ser feito por um corte atrás da orelha [1]. Por ali, nós chegamos ao ouvido médio e à mastoide usando um microscópio [2]. O objetivo é tirar toda a doença e deixar o ouvido seco e seguro. A reconstrução da audição vem depois disso, e nem sempre na mesma cirurgia.

Para entender a doença que mais leva a essa operação, veja o que é o colesteatoma. A etapa do osso tem a sua própria página, a mastoidectomia.

Por que é a cirurgia do colesteatoma e da otite crônica

Não existe tratamento clínico, nem medicamento que resolva o colesteatoma. Ele é uma bolsa de pele que cresce no lugar errado, dentro do ouvido, e vai corroendo o osso e os ossinhos da audição com o tempo [1]. A única forma de tirá-lo é a cirurgia. E tirar bem significa alcançar todos os cantos onde ele pode ter se espalhado, inclusive dentro da mastoide [1]. Por isso a operação precisa das duas etapas.

A otite média crônica entra na mesma lógica. Quando a inflamação do ouvido médio persiste por anos, com tímpano perfurado ou com doença dentro do osso, a limpeza da mastoide e o conserto do tímpano resolvem o problema na raiz [2]. As indicações principais da mastoidectomia são a mastoidite crônica com suas sequelas e o colesteatoma [2].

Os detalhes de como o colesteatoma é retirado estão na página sobre a cirurgia para remover o colesteatoma.

Técnica fechada e técnica aberta, o que muda para você

Existem dois jeitos de fazer a operação, e a diferença entre eles pesa na sua vida depois. A escolha depende de quão espalhada está a doença e do que o cirurgião encontra durante o procedimento.

Na técnica fechada, chamada de canal wall up, a parede de trás do canal do ouvido é preservada [1][2]. O ouvido continua com o formato de sempre por dentro. Não sobra uma cavidade aberta. A vantagem é um ouvido de aparência mais natural, sem a necessidade de limpezas frequentes, e uma audição que tende a ser melhor [1]. A desvantagem é que a doença pode voltar com mais facilidade, porque fica mais difícil enxergar todos os cantos [1]. Uma revisão que juntou vários estudos encontrou risco de retorno cerca de três vezes maior com a técnica fechada do que com a aberta, ainda que os números variem de estudo para estudo [5].

Na técnica aberta, chamada de canal wall down, essa parede é removida [1][2]. O cirurgião transforma o canal e a mastoide numa única cavidade aberta, como uma tigela rasa [1][2]. A vantagem é enxergar tudo, o que pode reduzir a chance de a doença voltar [1]. O preço é uma cavidade que fica para sempre e exige cuidado pela vida toda.

Veja o que muda no dia a dia com a técnica aberta.

Ponto O que acontece com a cavidade aberta
Limpeza A cavidade precisa de limpezas periódicas no consultório, para sempre [1][2]
Água O ouvido não tolera bem a entrada de água, que pode causar tontura e infecção [1]
Aparelho auditivo Pode ser mais difícil adaptar um aparelho auditivo depois [1]
Audição O resultado auditivo pode ser um pouco menos favorável, sobretudo se os ossinhos precisarem de reconstrução [1]

Nenhuma das duas é a "certa" para todo mundo. A técnica aberta costuma ser reservada para doença mais extensa ou para quem não pode fazer acompanhamento de perto. A fechada é preferida quando dá para tirar tudo com segurança preservando a anatomia. Sobre o risco de a doença voltar, veja o colesteatoma pode voltar.

Diferença entre timpanoplastia e timpanomastoidectomia

Essa é uma dúvida comum, e a diferença é de tamanho. A timpanoplastia é o conserto do tímpano, com ou sem reparo dos ossinhos da audição [3]. Ela trata um problema que está no ouvido médio, logo atrás do tímpano, como uma perfuração que não fecha [3]. Não mexe no osso da mastoide.

A timpanomastoidectomia é maior. Ela inclui a timpanoplastia e soma a limpeza da mastoide [1]. É a operação escolhida quando a doença passou do ouvido médio e entrou no osso, como acontece no colesteatoma [1][3]. Em palavras simples, toda timpanomastoidectomia tem uma timpanoplastia dentro dela, mas nem toda timpanoplastia precisa da parte da mastoide.

Se o seu pedido de cirurgia diz "timpanomastoidectomia", é sinal de que a avaliação apontou doença também no osso, e não só no tímpano. É uma cirurgia maior porque precisa alcançar mais longe.

Anestesia, duração e internação

A timpanomastoidectomia é feita com anestesia geral, ou seja, você dorme durante todo o procedimento [1][2]. O tempo de cirurgia varia conforme a extensão da doença e a técnica usada, e costuma levar algumas horas.

A internação costuma ser curta. A maior parte das pessoas recebe alta em 12 a 24 horas depois da cirurgia [1]. A maior parte dos pacientes não precisa dormir no hospital. O curativo e as orientações de cuidado saem com você, e o retorno para revisão é marcado logo em seguida.

Os riscos

Toda cirurgia de ouvido é delicada porque trabalha perto de estruturas importantes. Os riscos existem, são conhecidos e, na maioria das vezes, não acontecem. Vale entender cada um.

O nervo facial passa dentro do osso, muito perto de onde o cirurgião trabalha. Ele comanda os músculos do rosto. Uma lesão desse nervo pode causar fraqueza na face, e a chance de paralisia facial descrita na literatura fica entre 1% e 3,4% [1]. É um risco baixo, mas real, e por isso a cirurgia é feita com monitorização e sob microscópio, e exige experiência do cirurgião.

O paladar pode mudar por causa de um nervo fino que cruza o ouvido médio, a corda do tímpano, responsável pelo gosto na frente da língua [3]. Esse nervo quase sempre aparece durante a cirurgia e, em casos de colesteatoma, às vezes precisa ser sacrificado [3]. O resultado pode ser uma alteração do paladar, na maior parte das vezes temporária [1].

A audição pode piorar em vez de melhorar. Isso é incomum, mas a perda auditiva permanente do ouvido interno pode acontecer, em geral ligada a uma comunicação anormal com o labirinto, a parte do equilíbrio e da audição fina [1]. É um dos riscos mais temidos e um dos mais raros.

A tontura pode surgir nos primeiros dias e costuma melhorar. Uma fístula liquórica, o vazamento do líquido que banha o cérebro, é uma complicação rara e possível quando o osso vizinho ao cérebro é aberto [2]. Sangramento e infecção completam a lista dos riscos gerais [2].

Vale uma medida de realismo. O colesteatoma é uma doença benigna, mas a cirurgia é tecnicamente complexa, e a literatura descreve resultados abaixo do esperado em algo entre 5% e 40% dos casos, a depender da gravidade [1]. Isso não é motivo para medo, e sim para escolher bem quem opera.

O que esperar da audição

O primeiro objetivo da cirurgia é tirar a doença e deixar o ouvido seguro. A audição vem em segundo lugar, e o resultado depende de quanto os ossinhos foram poupados ou puderam ser reconstruídos [1][3].

Quando o colesteatoma corrói os ossinhos que conduzem o som, nós podemos reconstruí-los na mesma cirurgia ou numa segunda etapa, com um pedaço do próprio osso remodelado ou com uma prótese [1]. Essa reconstrução é decidida muitas vezes durante a operação, ao ver o estado real das estruturas [1]. Por isso não dá para prometer o estado final da audição antes.

A perda causada por ossinhos danificados é mecânica, chamada de condutiva. O som chega abafado porque a corrente de ossinhos que o transmite está interrompida, e não porque o ouvido interno parou de funcionar. Esse tipo de perda pode melhorar com a reconstrução, mas o ganho varia de pessoa para pessoa e não é garantido [1][3]. A técnica fechada tende a oferecer audição melhor do que a aberta, sobretudo quando os ossinhos são preservados [4]. Ainda assim, o combinado precisa ser claro. Primeiro a segurança, depois a audição.

A recuperação e o acompanhamento

A recuperação da parte externa costuma ser tranquila. Os primeiros dias pedem repouso, cuidado com o curativo e a orientação de manter o ouvido seco. A audição pode ficar abafada por semanas por causa do curativo interno e do inchaço, e isso é esperado.

O ponto mais importante da recuperação é o acompanhamento, porque o colesteatoma pode voltar, e essa chance é maior em crianças. Em cinco anos após a primeira cirurgia, a taxa de retorno chega a ser 2,6 vezes maior em crianças do que em adultos, 38% contra 14% [1]. Por isso o seu otorrino pode programar uma revisão cirúrgica de segurança entre 6 e 12 meses, chamada de "second look", ou um acompanhamento com um tipo específico de ressonância que enxerga colesteatoma escondido [1].

A técnica fechada costuma exigir esse controle mais rigoroso, porque a doença pode se esconder atrás da parede preservada [1]. A técnica aberta troca parte desse risco pela cavidade que precisa de limpeza para sempre [1][2]. Nos dois caminhos, sumir do acompanhamento é o maior erro que o paciente pode cometer.

Os cuidados do período de recuperação estão detalhados em colesteatoma pós-operatório, e o risco de retorno da doença em o colesteatoma pode voltar.

Nota pessoal: Como otorrino com atuação dedicada à cirurgia do ouvido, costumo dizer ao paciente que a timpanomastoidectomia tem uma ordem de prioridades que não muda. Primeiro tirar a doença por completo, depois deixar o ouvido seguro, e só então cuidar da audição. Quem entende isso decide melhor, porque não cobra da cirurgia uma promessa de audição que nenhum cirurgião pode dar de antemão. A escolha entre a técnica fechada e a aberta eu prefiro fechar com o paciente caso a caso, com os exames na mão e depois de examinar o ouvido de perto.

Antes de decidir

O colesteatoma exige exame físico presencial antes de qualquer decisão de cirurgia. A avaliação do tímpano com otoscopia e com o endoscópio não se faz à distância. Uma consulta on-line pode servir como uma triagem inicial ou uma segunda opinião preliminar. A decisão cirúrgica precisa do exame no consultório.

Se você recebeu um pedido de timpanomastoidectomia e quer entender o seu caso, comece pela página sobre o colesteatoma e depois veja a cirurgia para remover o colesteatoma.

O Dr. Luciano Moreira atende pacientes com perda auditiva do mundo inteiro através da Telemedicina. Para marcar sua consulta, clique aqui.

Referências

  1. Kennedy KL, Singh AK. Middle Ear Cholesteatoma. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024. NBK448108
  2. Castle JT. Mastoidectomy. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024. NBK559153
  3. Ellis JC, McCaffrey TV. Tympanoplasty. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024. NBK565863
  4. Karamert R, Eravci FC, Cebeci S, et al. Canal wall down versus canal wall up surgeries in the treatment of middle ear cholesteatoma. Turk J Med Sci. 2019;49(5):1426–1432. PMC7018256
  5. Tomlin J, Chang D, McCutcheon B, Harris J. Surgical technique and recurrence in cholesteatoma: a meta-analysis. Audiol Neurootol. 2013;18(3):135–142. PubMed 23327931
Foto de Dr. Luciano Moreira
Dr. Luciano Moreira

CRM RJ 651923 • RQE Nº: 9780 • Especialista em Otologia

Médico otorrinolaringologista especializado em cirurgias da audição. Referência no Brasil em otosclerose e implante coclear. Atende no Rio de Janeiro e São Paulo.

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Dr. Luciano Moreira

CRM: 5265192-3

Médico otorrinolaringologista especializado em otologia e cirurgias da audição. Formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é membro da Academia Brasileira e Americana de Otorrinolaringologia.

Líder da Clínica Sonora, referência no tratamento de surdez, otosclerose e implante coclear. Atende pacientes de todo o Brasil e do exterior por telemedicina e presencialmente no Rio de Janeiro

Academia Brasileira de ORL

Academia Americana de ORL

Especialista em Otologia

Cirurgião de Implante Coclear

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