Colesteatoma é câncer? É um tumor maligno no ouvido?

Neste artigo você vai aprender:

Resposta rápida

O colesteatoma não é câncer. Ele é uma pele que cresce no lugar errado, dentro do ouvido médio, e vai formando uma bolsa que aumenta com o tempo [1]. Os médicos às vezes chamam essa bolsa de "tumor", mas no sentido antigo da palavra, que quer dizer massa que cresce, e não no sentido de câncer [1]. O colesteatoma é benigno. Ele não se espalha pelo corpo, não cai no sangue e não faz metástase [1]. Mesmo assim, ele é levado a sério, porque corrói o osso e os ossinhos da audição por onde passa [1]. Benigno, aqui, não quer dizer inofensivo. Se a sua dúvida é se o colesteatoma é grave ou pode trazer complicações, isso está em colesteatoma e otite crônica.

Por que a palavra "tumor" assusta

Quem recebe o diagnóstico costuma ouvir a palavra "tumor" e pensar logo em câncer. É uma reação natural. No dia a dia, tumor virou sinônimo de câncer. Na medicina, a palavra é mais antiga e mais ampla. Tumor quer dizer qualquer massa que cresce onde não devia, seja ela benigna ou maligna [1]. Um cisto é um tumor. Um lipoma, aquela bolinha de gordura embaixo da pele, também. Nenhum dos dois é câncer.

O colesteatoma entra nesse grupo. Ele é uma massa que cresce, sim, mas uma massa de pele, não de célula cancerosa [1]. Por isso, quanto ao câncer, o nome assusta mais do que deveria. O medo é compreensível, mas está no lugar errado. O cuidado com o colesteatoma tem outro motivo, e ele aparece mais à frente.

Para entender o que é essa bolsa de pele por dentro, veja o que é o colesteatoma.

Benigno e maligno, a diferença em palavras simples

A diferença entre um tumor benigno e um maligno não está no tamanho nem no susto que causa. Está no comportamento.

Um tumor maligno, o câncer, tem duas marcas. Ele invade os tecidos ao redor de forma desordenada. E, pior, ele solta células que viajam pelo sangue e pela linfa e formam novos focos longe dali, as metástases. É isso que torna o câncer um problema do corpo inteiro.

Um tumor benigno não faz isso. Ele pode crescer e até incomodar, mas fica no lugar. Não invade à distância e não faz metástase. O colesteatoma é benigno por esse critério [1]. Ele cresce dentro do ouvido, empurra e corrói o que está por perto, mas não vira uma doença do corpo todo.

Tumor benigno (como o colesteatoma) Tumor maligno (o câncer)
Cresce no lugar, empurra e corrói o que está perto [1] Invade os tecidos vizinhos de forma desordenada
Não solta células para o resto do corpo Solta células que viajam e formam metástases
Fica restrito ao ouvido [1] Pode virar uma doença do corpo todo
Se resolve com cirurgia local [1] Costuma exigir tratamento amplo

Por que o colesteatoma não é câncer

Debaixo do microscópio, o colesteatoma é feito de pele comum. É o mesmo tecido que reveste a parte de fora do ouvido, só que preso e empilhado no lugar errado, dentro do ouvido médio [1]. Essa pele descama, como toda pele, mas os restos não têm para onde ir. Eles se acumulam e formam a bolsa que vai crescendo [1]. O próprio nome atrapalha. "Colesteatoma" sugere colesterol ou gordura, e não há nem um nem outro ali dentro, só pele e o que ela descama [1].

Os médicos classificam essa bolsa como uma lesão benigna e não neoplásica [1]. "Não neoplásica" quer dizer que não é um câncer de verdade. Não é uma célula que enlouqueceu e passou a se multiplicar sem controle. É pele normal presa num lugar anormal. Ela não cai no sangue, não faz metástase e não é maligna [1]. Por isso a resposta direta à pergunta que trouxe você até aqui é não. O colesteatoma não é câncer.

O câncer que pode surgir junto é outra coisa, e é raríssimo

Há um ponto a esclarecer, sem alarme. Um câncer de verdade pode aparecer no ouvido de quem convive com doença crônica ali por muitos anos. É o carcinoma de células escamosas do osso temporal, um câncer da pele que reveste a região do ouvido [2].

Duas coisas precisam ficar claras. A primeira é que ele é raríssimo. Os cânceres dessa região representam cerca de 0,2% de todos os tumores da cabeça e do pescoço, e aparecem em algo como um a cada 5.000 a 20.000 pacientes com queixas de ouvido [2]. A segunda é que ele não é o colesteatoma "virando" câncer. É um câncer próprio, diferente, que pode surgir no terreno de um ouvido inflamado por décadas [2]. O colesteatoma e a otite crônica aparecem entre os fatores ligados a ele, mas como companhia de longa data, não como transformação [2].

Traduzindo. Ter colesteatoma não vai te dar câncer. O que existe é um câncer separado, muito raro, que pode aparecer em ouvidos doentes e mal cuidados por muito tempo. Isso é mais um motivo para tratar o colesteatoma e não conviver com ele por anos, e não um motivo para pânico.

Benigno não quer dizer inofensivo

Aqui está o motivo real do cuidado. O colesteatoma é benigno, mas tem um jeito destrutivo de crescer. Conforme a bolsa aumenta, ela corrói o osso e os ossinhos que conduzem o som dentro do ouvido médio [1]. Isso pode causar perda de audição. Essa perda é do tipo mecânico, chamada de condutiva, porque o som deixa de passar pela corrente de ossinhos, e não porque o ouvido interno tenha parado [1].

Se ninguém trata, a bolsa continua avançando. Ela pode alcançar o nervo que move o rosto, o nervo facial, e a parte do equilíbrio [1]. Em casos mais avançados, pode abrir caminho na direção do cérebro [1]. São situações mais sérias, e são elas que explicam por que uma doença benigna é levada a sério. Não é o medo de câncer que justifica operar. É esse comportamento corrosivo e local, que vai piorando com o tempo.

Os perigos e as complicações do colesteatoma não tratado têm uma página só para eles. Veja colesteatoma e otite crônica.

Como o colesteatoma se resolve

Não existe remédio, gota ou antibiótico que faça a bolsa de pele desaparecer [1]. O colesteatoma se resolve com cirurgia. Nós entramos no ouvido, retiramos toda a pele empilhada e limpamos os cantos por onde ela pode ter se espalhado, inclusive dentro do osso atrás da orelha [1]. Quando os ossinhos foram corroídos, nós podemos reconstruí-los na mesma cirurgia ou numa segunda etapa, para tentar recuperar a audição [1]. É um trabalho delicado, perto de estruturas importantes, e exige experiência do cirurgião.

Por ser uma doença que cresce devagar e não é câncer, dá para operar com calma, no tempo certo, sem a pressa do desespero. Mas dá para operar, e deixar como está não é uma boa escolha, porque a bolsa não regride sozinha. Os detalhes de como a cirurgia é feita estão em cirurgia para remover o colesteatoma. E, como o colesteatoma pode voltar mesmo depois de bem retirado, o acompanhamento tem a sua própria página, o colesteatoma pode voltar.

Nota pessoal: Como otorrino com atuação dedicada à cirurgia do ouvido, vejo esse medo com frequência. Alguém fala na palavra "tumor", ou aparece a palavra num laudo de exame, e a pessoa chega ao consultório imaginando o pior. O colesteatoma não é câncer, é uma pele fora do lugar, e o que ele tem de ruim é local, dentro do ouvido. Quando o paciente entende que o problema é corrosivo, e não canceroso, ele para de decidir pelo medo e passa a decidir com a cabeça. É disso que a boa cirurgia precisa, de uma escolha tranquila e no tempo certo.

Antes de decidir

O colesteatoma precisa de exame presencial antes de qualquer conclusão. No consultório, eu examino o ouvido com o endoscópio, uma câmera fina que mostra o tímpano de perto. Isso não se faz à distância. Uma consulta on-line pode servir como triagem inicial ou como segunda opinião preliminar, para você entender o seu caso e organizar os exames. A decisão sobre operar depende do exame no consultório.

Se você chegou aqui com medo de câncer, a parte mais importante já está respondida. Para entender a doença por inteiro, comece por o colesteatoma.

O Dr. Luciano Moreira atende pacientes com perda auditiva do mundo inteiro através da Telemedicina. Para marcar sua consulta, clique aqui.

Referências

  1. Kennedy KL, Singh AK. Middle Ear Cholesteatoma. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024. NBK448108
  2. Lovin BD, Gidley PW. Squamous cell carcinoma of the temporal bone: A current review. Laryngoscope Investig Otolaryngol. 2019;4(6):684–692. PMC6929568
Foto de Dr. Luciano Moreira
Dr. Luciano Moreira

CRM RJ 651923 • RQE Nº: 9780 • Especialista em Otologia

Médico otorrinolaringologista especializado em cirurgias da audição. Referência no Brasil em otosclerose e implante coclear. Atende no Rio de Janeiro e São Paulo.

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Dr. Luciano Moreira

CRM: 5265192-3

Médico otorrinolaringologista especializado em otologia e cirurgias da audição. Formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é membro da Academia Brasileira e Americana de Otorrinolaringologia.

Líder da Clínica Sonora, referência no tratamento de surdez, otosclerose e implante coclear. Atende pacientes de todo o Brasil e do exterior por telemedicina e presencialmente no Rio de Janeiro

Academia Brasileira de ORL

Academia Americana de ORL

Especialista em Otologia

Cirurgião de Implante Coclear

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