Depois de correr risco de morte por uma meningite há cerca de 6 meses, minha paciente Laura comemora esta semana seu aniversário de 2 anos, junto dos pais e irmãs. Durante o “parabéns pra você” ela sorri e bate palmas, acompanhando com atenção o coro de vozes da família. Isso graças aos dois implantes cocleares colocados por nós há cerca de 4 meses, após uma perda auditiva rápida e total, sequela da meningite.

Durante os quase 20 dias que Laura permaneceu internada, sua audição era a ultima coisa que a família pensava. Tendo desenvolvido um quadro infeccioso grave, todas as atenções estavam direcionadas à vencer a luta contra a bactéria Haemophilus Influenzae, causadora de meningite.

Otite e Meningite

Existe uma íntima relação anatômica entre o ouvido e as meninges que recobrem o cérebro. Entre as várias estruturas importantes que delimitam anatomicamente os ouvidos, as meninges estão separadas do ouvido por lâminas de osso, em alguns pontos finas como uma casca de ovo. Em algumas pessoas, essas lâminas ósseas não se formam completamente, ou estão desgastadas, promovendo acesso direto para eventuais bactérias causadoras das otites. Mesmo quando as meninges estão protegidas, as bactérias podem alcança-las através dos vasos sanguíneos.

Dentre as possíveis complicações das otites médias agudas, a meningite bacteriana é a mais comum.

Meningite e Perda Auditiva

A meningite pode ser causada por vírus, bactérias e mais raramente, fungos. Embora as meningites virais sejam as mais comuns, são os quadros bacterianos causam mais risco a audição. Uma revisão dos estudos que avalia a incidência de surdez após quadros de meningite aponta índices entre 7 e 44%, dependendo dos critérios utilizados, da gravidade dos quadros analisados e dos centros de saúde em que os estudos foram realizados.

O risco de desenvolver perda auditiva após quadros de meningite está relacionado a gravidade da doença, ao tipo de bactéria e à demora para se implementar o tratamento adequado. Quando a cóclea é acometida pela inflamação, pode ocorrer lesão em grau variável das suas células ciliadas, causando surdez neurossensorial.

Foi aconteceu no caso de Laura. Duas semanas após vencer o processo infeccioso e retomar sua rotina em casa, seus pais perceberam que ela parou de reagir quando chamada. Parou também de se divertir com as as músicas que gostava. Com a dificuldade de interagir com sua família e seu ambiente, Laura passou ficar mais irritada e mal humorada. Coube aos pais a iniciativa que poderia salvar o futuro auditivo da Laura. Mesmo sem terem sido alertados para o risco de surdez e diante desses sinais, eles a trouxeram rapidamente ao consultório.

Urgência Auditiva

A perda auditiva causada pela meningite, quando ocorre, pode ter níveis variados. Quando de grau leve a moderada, a maioria dos pacientes pode ser bem reabilitada com aparelhos auditivos comuns. Entretanto como no caso da Laura, pode acontecer a perda total da audição. Nesses casos, surge indicação do implante coclear como a única maneira de recuperar o estímulo auditivo. É quando o caso ganha o status de urgência cirúrgica.

Com o fim do processo infeccioso e inflamatório, segue-se um processo cicatrização que pode levar a ossificação do interior da cóclea em cerca de 20 a 30% dos casos.

Quando esta ossificação acomete parcialmente  a cóclea, nós dispomos de técnicas e dispositivos para conseguir posicionar o implante coclear de forma adequada. Entretanto, uma ossificação completa do interior da cóclea pode impedir o implante, ou piorar muito seu resultado.

Mesmo quando conseguimos criar espaço para introduzir um implante numa cóclea totalmente ossificada, os resultados auditivos tendem a ser piores.

Foi o que nos fez agir rapidamente no caso da pequena Laura. Enquanto na maioria dos candidatos ao implante levamos uma média de 3 meses entre a primeira consulta e a cirurgia, para Laura esse intervalo foi de 30 dias, na tentativa de agir antes de uma possível ossificação. Durante o procedimento, identifiquei a formação de fibrose em uma das cócleas, porém sem ossificação. O achado permitiu o bom posicionamento dos implantes. Após a ativação, Laura voltou a reagir aos sons e continuou a ganhar o vocabulário que vinha adquirindo antes da meningite, apresentando também um comportamento mais calmo.

Vacinação!

Infelizmente nem todos os casos de surdez por meningite chegam a tempo de uma ação tão rápida. Por isso é importante que todos, especialmente os médicos pediatras e neurologistas estejam cientes do risco e encaminhem os pacientes para exames auditivos após quadros de meningite.

Ainda mais importante é que se cumpra rigorosamente as vacinas indicadas pelo pediatra. Estão disponíveis vacinas contra 3 tipos para bactérias que causam meningites: Meningococo. Estreptococo e Haemophilus.