tumor hipófise TEXTOJoana tem 53 anos, é casada e mãe de 3 filhos. Ela sempre teve uma boa saúde, mas há alguns meses vinha se preocupando com a gradual perda da visão, que nas últimas semanas já a impedia de sair sozinha de casa. As consultas e exames com oftalmologistas não revelaram nenhum problema nos olhos mas, após uma ressonância magnética de crânio, descobriu-se que a causa da sua perda visual era um provável macroadenoma hipofisário. A hipófise é uma glândula localizada na base do cérebro e tem relação anatômica íntima com estruturas vitais, como a artéria carótida interna e vários nervos cranianos, principalmente os nervos ópticos. Os adenomas são os tipos mais comuns de tumores da hipófise e com frequência devem ser removidos através de cirurgia. Como o tumor de Joana cresceu rápido e já media quase 5 centímetros, ele comprimia e já impedia o bom funcionamento dos nervos ópticos.

Com o diagnóstico, Joana foi encaminhada a um neurocirurgião, especialista que atua no tratamento cirúrgico de tumores e outras lesões do cérebro. Nos primórdios da medicina e da cirurgia, os tumores da hipófise eram considerados inoperáveis ou tinham alto grau de mortalidade. Com os avanços anestésicos e cirúrgicos, eles passaram a poder ser removidos abrindo-se o crânio ou através do palato (céu da boca) e do nariz, utilizando-se afastadores e um microscópio para melhor visão. Finalmente, com a difusão dos endoscópios cirúrgicos nas últimas 2 décadas, cirurgiões de várias especialidades ganharam uma arma poderosa. Especialmente na otorrinolaringologia, que atua nas doenças de cavidades e orifícios naturais (boca e garganta, nariz, ouvidos), a cirurgia endoscópica trouxe a possibilidade de “entramos’ nos pacientes através dessas cavidades, com menos trauma, melhor visão e ótima iluminação. Nesse período, cirurgiões da nossa especialidade ganharam muita experiência no manejo do endoscópico e é assim que a otorrinolaringologia vem se unindo à neurocirurgia para tratamento de muitas lesões e tumores na base do crânio.

Há 10 dias, Joana foi submetida a uma cirurgia conhecida como Hipofisectomia Endoscópica Trans-Esfenoidal, em colaboração com o neurocirurgião Vicente Temponi. Em pouco mais de duas horas, e com o auxílio de um equipamento neuronavegador – uma espécie de “GPS interno” para sabermos onde estamos – removemos  o macroadenoma da sua hipófise, que já envolvia a artéria carótida interna dos dois lados. No terceiro dia após a operação, Joana foi para casa se sentindo bem, enxergando melhor, sem dor ou qualquer outra queixa. Para os interessados, segue o link do vídeo da cirurgia.

Na recente tendência de busca por técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, a cirurgia endoscópica vem ganhando cada vez mais espaço otorrinolaringologia. Inicialmente usada por nós para procedimentos dentro do nariz, ela também é aplicada atualmente para tratamento de lesões da laringe, dos ouvidos e de tumores da base do crânio,  num belo exemplo de união entre a alta tecnologia e técnica cirúrgica avançada.

Luciano Moreira – Otorrinolaringologista