De São Paulo – Ontem enfrentei as nuvens de chuva e fui a São Paulo testemunhar a chegada ao Brasil do novo implante coclear da fabricante australiana Cochlear. O feito aconteceu pelas mãos do amigo e parceiro Dr. Arthur Castilho, auxiliado pelo Dr. Thiago Damico.  Uma criança de 7 meses, nascida com surdez profunda bilateral foi a primeira paciente do país a receber o novo implante Profile CI532. O novo modelo traz diferenças importantes em relação aos implantes atualmente usados por aqui.

FUNCIONAMENTO DOS IMPLANTES COCLEARES

O funcionamento dos sistemas de implantes cocleares dependem de dois dispositivos que trabalham em conjunto: O implante propriamente dito (inserido durante a cirurgia) e o processador de fala – dispositivo semelhante a um aparelho auditivo e usado pelo paciente para captar e digitalizar os sons. O CI532 é o nome dado ao implante. As unidades externas (processadores de fala) da marca possuem outra nomenclatura (Freedom, Nucleus 5, Nucleus 6).

O CI532

Desenho inovador do CI532

As características inovadoras do CI532 estão relacionadas às suas dimensões e seu design. A plataforma que abriga seu “coração eletrônico” foi afinada de maneira surpreendente. Valendo-se de uma nova distribuição dos componentes internos, a fabricante conseguiu confeccionar um implante com impressionantes 3,9 milímetros de espessura (contra 6,9 dos seus modelos antigos), o que resultou num dispositivo mais anatômico, causando uma elevação bem menor na região atrás e acima da orelha, especialmente em crianças pequenas.

Apenas 3,9 mm de espessura.

A segunda mudança aconteceu no desenho do feixe de eletrodos e na sua forma de inserção. Atualmente os eletrodos podem ser divididos em dois grupos: Os retos (também chamados de parede lateral) e os curvos (ou peri-modiolares). O conceito mais aceito atualmente é que os eletrodos retos são mais indicados para inserção pela janela redonda e em casos em que se busca preservar restos auditivos. Já os eletrodos curvos até então disponíveis, são mais apropriados para inserção via cocleostomia e em casos sem audição residual. No CI532, os eletrodos são curvos, mas bem mais finos do que os outros, além de poderem ser aplicados tanto por cocleostomia, quanto pela janela redonda.

Na teoria, eletrodos curvos (peri-modiolares) – por estarem posicionados mais próximos ao nervo auditivo – seriam capazes de proporcionar mais canais funcionais e independentes de frequências, o que resultaria numa melhor discriminação de fala. Porém na prática essa afirmação ainda carece de mais evidências. Os estudos comparativos realizados até então têm resultados discrepantes: Alguns mostram desempenho equivalente e outros uma melhor discriminação de fala com os novos eletrodos peri-modiolares.

Um estudo publicado semana passada na revista Otology & Neurotology, realizado em 20 peças anatômicas, com análise radiológica e histopatológica, sugere que o CI532 pode ser inserido de forma bem pouco traumática para as estruturas cocleares. É importante dizer que seu manejo requer um treinamento específico, já que sua sua manipulação tem particularidades importantes.

O CI532 já vem sendo usado nos EUA, Europa a Austrália há cerca de um ano. O gerente de soluções auditivas da empresa Politec Saúde (distribuidora no Brasil dos os implantes Cochlear) Alexandre Lopes me informa que o preço do novo implante é cerca de 25% acima dos modelos disponíveis. Assim, no caso de cirurgia por convênios, caberá o médico da equipe avaliar cada caso e justificar o pedido. A aprovação dependerá da avaliação caso a caso pela operadora de saúde. O novo implante não está disponível nos centros do SUS, pelo menos por enquanto.