sexto sentido

Sexto sentido costuma ser a expressão usada para falar de auras, almas, fantasmas ou premonições… Misticismos à parte, meu olhar aqui é através neurociência aplicada aos canais sensoriais.

No tratado Da Alma, falando da Alma Sensitiva, o filósofo grego Aristóteles descreveu no século IV a.C o que ele classificou como os cinco sentidos da alma, e dissertou sobre visão, audição, oftato, tato e paladar. Talvez pela notoriedade e genialidade do preceptor de Alexandre o Grande, pouco se fez até hoje para difundir a correta informação sobre os sentidos humanos. Como notou Christian Jarrett em Great Myths about de Brain (sem tradução para o português), mesmo entre cientistas, o mito dos cinco sentidos permanece forte e propagado como verdade.

Regredindo nos conceitos, caímos na pergunta: O que é um sentido humano? Guardadas as diferentes respostas, consideremos “sentido” como sendo qualquer canal de entrada do nosso cérebro para informações vindas do meio ambiente. Assim, os ditos sentidos seriam as diferentes vias de entrada que nos une ao mundo ao redor. Assim além dos famosos cinco, poderíamos adicionar o sexto sentido: o equilíbrio, conferido principalmente por nosso sistema vestibular, cujo centro é nosso labirinto, localizado em nosso ouvido interno. O labirinto é um órgão de anatomia geométrica, dotado de 3 canais semicirculares, funcionando como nosso prumo 3D. Sem ele ficaria difícil andar, correr, subir escadas e praticar qualquer esporte. Sem esse nosso “sexto sentido”, mesmo com os nossos célebres cinco  funcionando bem, não conseguiríamos nem sair da cama.

Mas não temos só seis sentidos. Ainda temos outros importantes canais de entrada. A propriocepção (ou cinestesia) é a capacidade de saber a posição de nosso corpo e seus membros mesmo sem olharmos para eles. Assim, mesmo de olhos fechados podemos saber onde estão nossas mãos, pés e levá-los até outras partes do corpo e lugares do espaço com considerável precisão. Assim podemos desligar o despertador quando ele toca com o quarto ainda escuro, mesmo sem enxergar. A propriocepção trabalha em constante colaboração com o labirinto, o tato e a visão para nos conferir equilíbrio, orientação, direção. Ainda podemos falar de mais um sentido, nossa sensibilidade térmica que nos confere a sensação de frio ou calor através nossos receptores de temperatura localizados na pele.

Se admitirmos que o porquê dos sentidos é nos manter vivos e saudáveis, poderíamos incluir também nesse rol a capacidade de obter informações do nosso próprio corpo, como a dor, a vontade de esvaziar a bexiga ou o intestino. Todas essas vias de entrada encontram-se dentro da nossa cabeça, nas conexões neuronais do córtex cerebral.

E quanto as premonições, os insights, o “algo me diz que…”? Que tipo de canal nos traz essas informações? Elas são reais ou imaginárias? Seria esse nível de percepção fruto de “sentidos” ainda não conhecidos por nós ou resultado do processamento cerebral inconsciente das informações recebidas pelos canais ou sentidos que conhecemos?

Perguntas à parte, uma certeza podemos ter. Não termos apenas 5 sentidos.

Luciano Moreira – Otorrinolaringologista