Cura da surdez

Direto de Nova York, um resumo das atualidades apresentadas no evento que reuniu os pesquisadores que trabalham em busca de tratamentos que prometem encontrar a cura da surdez.

Por Dr. Luciano Moreira – 08/10/2019

Bate-e-volta em Nova York. A cidade que nunca dorme não é exatamente o lugar para se vir com tamanha rapidez. Entretanto, sendo em busca de novidades na busca pela cura da surdez, vale. E muito! Começo a escrever ainda dentro do avião que promete me levar de volta para o Brasil, depois de passar o dia na The New York Academy of Sciences (NYAS). Confesso que eu não conhecia a instituição até fazer a inscrição no evento. Trata-se de uma das associações científicas mais antigas dos EUA, com 200 anos de dedicados a ciência. A NYAS fica no quadragésimo andar de um dos prédios do complexo World Trade Center. De um lado, ergue-se a torre mais famosa do grupo. Do outro, fica o memorial situado onde despencaram as torres gêmeas há 18 anos.

O Evento

O palco da tragédia terrorista e muitas outras histórias abriu hoje espaço para  a esperança e a visão de um futuro promissor no tratamento da surdez. Em meio a uma plateia majoritariamente formada por pesquisadores, audiologistas e médicos, esperança resumia o sentimento de todos os presentes. Além dos profissionais da área, meia dúzia de pessoas portando seus aparelhos e implantes representavam os cerca 460 milhões de pessoas com algum grau de surdez. Uma grande tela ao lado do palco exibia legendas automáticas ao vivo. Nem mesmo as apresentações repletas de slides indecifráveis para os que não estão acostumados a análise detalhada de dados científicos evitou que todos permanecessem até o encerramento.

No fim, ficou um sentimento positivo de justificada esperança, desde que ajustada às devidas expectativas e à perspectiva de que a ciência e a tecnologia não avançam apenas pelo desejo, mas também com pesquisas, organização, uma pitada de sorte e muito, muito investimento.

A Esperança

Para os que têm a audição normal não é fácil compreender as limitações que a surdez – mesmo em graus mais leves – impõe. Uma parcela dos casos de surdez, especialmente as do tipo condutivo, pode ser tratada e resolvida com tratamentos medicamentosos ou cirúrgicos. Já os casos de surdez do tipo neurossensorial não podem ser curados ou resolvidos de forma definitiva através das ferramentas que a medicina hoje dispõe. Para esses, aparelhos e implantes auditivos são as soluções tecnológicas disponíveis para a reabilitação auditiva, com variados graus de sucesso. Esses dispositivos revolucionaram a realidade dos deficientes auditivos, permitindo que muitos deles passassem a levar uma vida totalmente integrada à sociedade ouvinte e ao mundo dos sons. Entretanto, alguns desafios relacionados à qualidade da audição através dessas tecnologias ainda permanecem.

Quando necessitam tirar seus aparelhos, os deficientes auditivos voltam a sua realidade. Além disso, demandas auditivas mais elaboradas (compreender a fala em ambientes barulhentos, ouvir música, aprender uma segunda língua) dependem de um esforço além do normal, o que se torna cansativo e algumas vezes, frustrante.

Diante dessas e de outras dificuldades, é extremamente comum recebermos pacientes em busca de um tratamento curativo para a surdez. Estimulados por essa demanda em escala mundial, um número considerável de médicos, audiologistas, farmacêuticos e biólogos vêm trabalhando em diversas universidade e empresas ao redor do mundo em busca de um tratamento curativo para a surdez. Embora o dia a dia da ciência aconteça em laboratórios de pesquisa e envolva muito trabalho, é na esperança dos homens por dias melhores que ela se fundamenta.

A esperança que move os milhões dos deficientes auditivos é a mesma que reuniu em Nova York uma centena de pessoas para apresentar os avanços mais recentes na busca pela a era da restauração auditiva.

Iniciativa e Organização 

O evento aconteceu dentro da agenda de discussões do comitê de bioquímica e farmacologia da NYAS. Seu nome deu o exato tom da proposta: Simpósio de Restauração Auditiva e Regeneração das Células Auditivas. A comissão organizadora foi composta por membros do meio acadêmico e da indústria. Nos EUA, assim como em outros países desenvolvidos, a junção entre universidades e empresas para o desenvolvimento de novas tecnologias e medicamentos é bastante comum. Essa fórmula foi responsável – para dar um exemplo dentro da própria área da surdez – por toda tecnologia que temos hoje em aparelhos auditivos e implantes cocleares. 

Outra instituição envolvida no evento foi a Hearing Health Foundation (HHF),  primeira organização dos EUA com a missão declarada de buscar tratamentos curativos para a perda auditiva. A HHF foi fundada em 1957 pela Sra. Collette Hamsey Baker (vale conhecer a história pessoal da fundadora!) e desde 2011 desenvolve o Hearing Restoration Project (HRP), um consórcio internacional de pesquisadores que, atuando de forma colaborativa e interdisciplinar, busca soluções para a restauração da audição em humanos, especialmente através da regeneração das células auditivas. Duas das aulas do simpósio foram apresentadas por pesquisadores da HHF.

O Peixe, O Pássaro e o Homem

A principal ideia por trás das pesquisas lideradas pelo HRP parte de uma análise comparativa entre diferentes espécies de animais que, assim como os seres humanos, possuem células ciliadas (desenho) utilizadas na audição ou outras capacidades sensoriais. 

As células ciliadas (CC) são neurônios que exercem a função de receptores. Na prática, elas representam o exato ponto de comunicação entre o meio externo e o sistema nervoso. Elas se situam na parte mais interna dos ouvidos de todos os mamíferos, assim como nos pássaros. Seus cílios (filamentos azuis do desenho) se movimentam segundo a onda vibratória produzida pelo som. Passando no interior do ouvido (amarelo), ela gera um potencial elétrico dentro do corpo celular (laranja). Esses potenciais são então transmitidos às terminações do nervo auditivo (azul) para seguir seu caminho pelo nervo auditivo até o cérebro.

Simplificando bastante, é principalmente nas células ciliadas que reside a barreira que ainda impede a restauração da audição nos casos da surdez do tipo neurossensorial em humanos. Enquanto nos ouvidos dos pássaros as CC lesadas são capazes de se regenerar, as cerca de 15 mil presentes no ouvido humano (um número ridiculamente pequeno em termos celulares!) carecem dessa capacidade e precisam nos acompanhar – e funcionar bem – desde o segundo mês de gestação até o resto de nossas vidas.

Outro animal que também possui células ciliadas é o peixe. Uma das espécies – o peixe zebra, do qual falei nesse post de 2015 – vem sendo bastante estudada em laboratório. Diferentemente dos mamíferos e das aves nos quais as CC encontram-se “escondidas” dentro dos ouvidos, nos peixes elas se situam na sua superfície corporal e são responsáveis por captar os movimentos da água ao seu redor. Sua função ajuda na busca de alimentos, e na proteção contra os predadores. A localização privilegiada das CC nos peixes permite aos cientistas analisá-las em pleno funcionamento, com o animal vivo.

A estratégia das pesquisas com aves e peixes tenta compreender quais os genes e as substâncias envolvidas no mecanismo de regeneração das CC nesses animais e que não estão presentes nos seres humanos. Alguns avanços utilizando esses modelos já foram obtidos em ratos nos laboratórios, com restauração auditiva efetiva em algumas amostras. Entretanto, como esses estudos ainda não foram feitos em humanos, mesmo que eles venham a obter êxito, é bem pouco provável que tenhamos qualquer aplicação prática desse modelo na próxima década.

O Caminho da Genética

Watson, Crick e seu modelo de DNA – Valeu um Nobel

Desde descrição da estrutura DNA em 1953, por James Watson e Francis Crick (foto), a evolução dos estudos em genética vêm revolucionando as pesquisas na área das ciências biológicas. A conclusão do Projeto Genoma Humano em 2004, quando todo o código genético humano foi descrito, abriu espaço para que os cientistas passassem a identificar causas genéticas para uma série de doenças. É assim que a cada dia vamos descobrindo que muitas condições, que antes não tinham origem definida, são causadas por falhas no código genético, também conhecidas por mutações.

Embora a deficiência auditiva possa ser causada por fatores externos (infecções, toxicidade, exposição ao ruído, dentre outros), um grande número de casos está ligado a mutações genéticas. Até o momento já foram identificadas diversas mutações – em quase uma centena de genes – responsáveis por casos de surdez. Como nós ainda não dispomos de métodos baratos para testar todos os pacientes com surdez que nos procuram – e outras mutações seguem sendo descobertas a cada ano – muitos ainda acabam ficando sem saber a causa exata da sua deficiência.

Durante o simpósio, três pesquisadores apresentaram seus trabalhos ligados a terapia genética para a surdez ligados aos genes TMC1, OTOF, além do gene onde ocorrem as mutações causadoras da síndrome de Usher. A terapia genética consiste em corrigir o gene mutante injetando-se no organismo um vírus responsável por levar um material genético correto para substitui-lo. Na teoria, a estrutura que tem a sua função determinada por aquele gene passaria então a funcionar normalmente. Na prática, os pesquisadores já conseguiram reverter a surdez de ratos portadores das mutações acima descritas. Entretanto, a fase de pesquisas em humanos ainda levará alguns anos.

Além de pesquisas em andamento na universidade de Columbia e de Harvard, duas empresas americanas de biotecnologia (Decibel Therapeutics e AKOUOS) avançam para tentar colocar no mercado tratamentos baseados na terapia genética. Durante suas apresentações, os otorrinolaringologistas e pesquisadores Lawrence Lustig e Jeffrey Holt estimaram que as primeiras soluções baseadas em engenharia genética estarão disponíveis em breve.”Acredito que em dois anos…”, afirmou o Dr Lustig. Entretanto, é importante lembrar que os tratamentos com a terapia genética deverão se aplicar num primeiro momento às pessoas que têm uma mutação genética específica e mapeada. Assim, para cada gene e mutação é necessário um tipo de tratamento diferente.

A Célula-Tronco

As células-tronco são estruturas intrigantes e poderosas, sendo capazes de evoluírem para qualquer outro tipo de célula do organismo. Por isso também são chamadas de células totipotentes – isto é – que tudo podem. Daí as células-tronco atraírem o interesse de muitas áreas da medicina. A ideia de pegar um punhado de células-tronco e diferenciá-las no que for necessário é, além de muito simples, irresistível. Assim, células de corações, rins, olhos, cabelos, articulações, bem como células ciliadas do ouvido novinhas em folha estariam disponíveis e prontas para trabalhar. Simples, não? Infelizmente, nem tanto…

Além das totipotentes, existem outras células-tronco menos poderosas, mas que ainda assim podem ser diferenciadas e transformadas em alguns, mas não todos os tipos de células. Esse é o caso das células progenitoras presentes dentro da cóclea. É justamente mirando nessas células que a empresa Frequency Therapeutics apresenta atualmente a tecnologia mais próxima de se tornar realidade num futuro próximo. Nos estudos realizados até agora, a substância FX-322 comprovou sua segurança em animais e seres humanos. A segunda fase do estudo está programada para começar ainda em 2019 e contará com 96 portadores de surdez neurossensorial leve a severa. As pessoas serão divididas em dois grupos. Num deles todos receberão aplicações do FX-322 dentro da membrana do tímpano, de forma semelhante aos procedimentos que realizamos atualmente para aplicação de corticoides intratimpânicos. O segundo grupo receberá injeções de um placebo, substância sem propriedades terapêuticas. Em seguida serão feitas comparações entre os grupos quanto a evolução da perda auditiva.

Na primeira fase do estudo em humanos, em que se buscava avaliar apenas a segurança da substância, houve uma melhora significativa – ainda que pequena – dos limiares auditivos em 4 dos 15 pacientes que receberam o medicamento. Apesar do resultado modesto, é a primeira vez que se consegue restaurar – ainda que parcialmente – a surdez neurossensorial em humanos. É importante dizer cada participante recebeu apenas uma aplicação do medicamento, uma vez que se tratava de um teste preliminar de segurança. Na fase 2 os pesquisadores pretendem fazer mais aplicações. A expectativa é que a reaplicação possa trazer um resultado mais expressivo. A conferir… A entrada definitiva do medicamento no mercado dependerá das conclusões da fase 2 das pesquisas que deverão terminar em 2020.

A Cura – Otimismo X Cautela

Nas palavras de Baar-Gillespie, diretor científico do Hearing Restoration Project, “Não é uma questão se vamos conseguir regenerar as células ciliadas auditivas, e sim quando isso vai acontecer”.

O que seria da ciência sem a energia, o sonho e a esperança de cientistas espalhados por milhares de laboratórios mundo afora? Assim como já relatei aqui na história do implante coclear, os pioneiros das tecnologias revolucionárias com frequência são alvo de descrédito e ataques. No início das pesquisas para desenvolver o ouvido biônico, a maior parte da comunidade científica acreditava que seria impossível recuperar os impulsos auditivos com estímulos elétricos. Décadas foram necessárias para que isso se tornasse realidade, mas hoje meio milhão de pessoas recuperaram sua capacidade de comunicação com a tecnologia dos implantes. Munidos do mesmo espírito, os pioneiros das pesquisas que trará a cura da surdez seguem em frente.

Para as pessoas que têm perda auditiva e para os profissionais que trabalham com a surdez, ficam alguns pensamentos e recomendações. Nem sempre a velocidade da ciência segue o desejo dos que esperam uma solução para ontem. Por outro lado, a evolução científica e tecnológica não cansa de nos surpreender, em velocidade crescente. Ainda vivemos na Era da Reabilitação Auditiva, em que aparelhos auditivos, implantes cocleares e outros dispositivos tecnológicos são capazes de compensar com enorme sucesso a perda auditiva. A qualidade dessas tecnologias é crescente e vem alcançando níveis inimagináveis até poucos anos. Essas soluções ainda evoluirão e seguirão sendo as principais opões de tratamento da surdez por vários anos, ainda que de forma paliativa.

Para a surdez de hoje não há nenhum tempo a perder. Deixar de se tratar esperando uma solução que não tem data para chegar – e ainda pode não ser indicada para o seu caso específico – é correr desnecessariamente uma série de riscos relacionados a surdez, tanto em crianças como em adultos.

Feito o alerta, sigamos confiantes em busca da cura da surdez! Qualquer novidade nesse sentido, contarei por aqui. Aí sim, vamos todos juntos comemorar o início de uma nova era – da Restauração Auditiva.