Não é o fone de ouvido!

Muito tem sido falado sobre os possíveis malefícios do uso do fone de ouvido, especialmente após a divulgação de um relatório da Organização Mundial de Saúde sobre surdez em crianças, em março deste ano. Segundo a OMS, 60% dos casos de perda auditiva em crianças podem ser evitados. O relatório também menciona como preocupante o uso crescente de fones de ouvido acoplados aos diversos dispositivos eletrônicos pessoais. Enquanto o relatório apresenta dados importantes, a divulgação que se seguiu não pode ser considerada à altura. Nos canais de TV, jornais e mídias sociais, o foco acabou sendo o uso dos fones de ouvido, como se estes fossem os vilões. Nada mais enganoso! E assim, mais uma campanha de alerta à população perde a oportunidade de conscientizar para o que realmente interessa. Desde então, é comum recebermos no consultório pais preocupados com o uso dos fones, ou mesmo proibindo que seus filhos os utilizem.

É do barulho!

Vamos direto ao ponto: Fones de ouvido não causam perda auditiva. No fim das contas, independente do tipo de fone, da caixa de som ou de qualquer outra fonte de som, o que pode causar perda auditiva é o volume elevado que eles produzem e o tempo de exposição à esse barulho. Jogar a culpa nos fones de ouvido é desviar do mais importante. Assim como muitas crianças já se habituaram ao uso de protetor solar, somente a informação continuada e repetitiva pode conscientiza-los do principal. Adultos e crianças devem entender as consequências, como a irreversibilidade de uma eventual surdez causada pela exposição sonora abusiva. O segredo é diminuir o volume!

Na Prática

Os dispositivos eletrônicos não apenas fazem parte da nossa vida cotidiana: na era da realidade aumentada, eles passarão a ser parte de nós. Telas de alta resolução, óculos e fones inteligentes, relógios conectados, dispositivos médicos implantáveis, além da fusão e interconexão desses e outros dispositivos, desenham um caminho sem volta. Portanto, nenhuma medida educacional pode ser mais inócua e sem sentido do que proibir o uso de qualquer um desses dispositivos. Bem mais proveitoso é desenvolvermos formas saudáveis de usá-los e como veremos mais adiante, nos valermos deles para promoção da nossa saúde e bem estar.

Quanto ao uso dos fones de ouvido o segredo é limitar o volume e o tempo de uso.

VOLUME – Quase todos os fones de ouvido disponíveis no mercado podem entregar volumes superiores a 110dB aos nosso ouvidos. Isso é bem superior ao nível de 85dB a partir do qual nossa audição começa a estar em risco. Ao usarmos o celular com um fone, não temos como saber a partir de que nível do marcador de volume passamos dos 85dB. Algumas marcas de celular, como a Samsung, exibem notificações de alerta quando se passa do ponto seguro. Na prática, considera-se seguro o volume que não exceda 50% do marcador. Mas, como dissemos acima, precisamos contar com outra variável além do volume.

TEMPO DE USO – O tempo de exposição ao barulho excessivo é um fator primordial no risco de se lesar a audição. Assim, podem ser necessárias 8 ou mais horas para se lesar os ouvidos com um volume de 85dB. Já para níveis de 130dB, menos de um minuto já pode ser o bastante. A propensão à lesão auditiva causada pelo barulho também é genética, mas está claro que quanto maior a pressão sonora (volume), menor o tempo necessário para o início da surdez. Portanto, a segunda dica prática é: Quanto menos tempo melhor.

Mas e os fones, qual o melhor e o pior?

Com o principal explicado acima, vamos à resposta do título deste post. Existem quatro tipos de fone de ouvido.

  1. circumauralCircumaurais: São os maiores. Cobrem toda a orelha e se apoiam ao redor da mesma. São os que possuem a melhor qualidade de som, principalmente de graves. Ao vedarem fisicamente o pavilhão auricular do meio externo, oferecem um bloqueio físico à captura dos ruídos externos pela nossa audição, oferecendo condições para se aumentar menos o volume.
  2. supraauricularOs Supra-auriculares: Também são grandes, mas ao invés de envolverem as orelhas, se colocam sobre as mesmas. Assim, seu bloqueio físico aos sons ambientes é pior.
  3. auricularOs Auriculares: São bastante comuns e se encaixam próximo a entrada do canal auditivo, sem vedá-lo. São os fones que vêm com o iPhone e vários outros modelos de smartphones. Como são rígidos, também não vedam fisicamente a entrada de som.
  4. intraauricularOs intra-auriculares: São os menores modelos. Encaixam-se dentro do conduto auditivo e possuem olivas macias, geralmente feitas de silicone, que se adaptam à anatomia de cada um e fornecem boa vedação para os sons ambientes. Alguns estudiosos alegam que podem ser mais perigosos, por se posicionarem mais próximos à parte interna do ouvido.

Cancelamento Ativo de Ruído: O Detalhe que faz toda Diferença

Muitas empresas do ramo já fabricam fones de ouvido com cancelamento ativo de ruído (noise cancelling). Trata-se de um mecanismo capaz de anular eletronicamente ruídos externos. Inicialmente desenvolvido para cancelar o ruído dentro dos aviões, os algoritmos mais modernos vêm sendo úteis em várias outras situações de barulho elevado. Como já era de se esperar, muitos desses modelos não estão disponíveis no Brasil e seus preços são bem mais altos do que os preços daqueles que não possuem essa funcionalidade. Mas seu custo vem caindo bastante e já se pode comprar bons fones com cancelamento ativo de ruído por cerca de 100 dólares. Essa função somada ao bloqueio físico dos sons existentes nos fones do tipo circumaural e intra-auricular são capazes de fornecer o melhor bloqueio externo de ruídos. Com um bloqueio efetivo dos sons do ambiente, o usuário é levado a aumentar menos o volume. Enfim, concluímos que os melhores modelos de fone de ouvido para quem deseja preservar a audição são os circumaurais e intra-auriculares com cancelamento ativo de ruído. E o título de piores vai para os supra-auriculares e os auriculares sem cancelamento ativo de ruído.

O Futuro: Fones de Ouvido para ouvir melhor.

Já escrevi antes sobre o advento dos “hearables“. Em breve os fones de ouvido estarão mais presentes do que nunca. Várias empresas já trabalham em modelos que não servem apenas para ouvir música ou assistir filmes. Em breve, esses modelos serão usados como aparelhos de audição para os que ouvem bem, mas desejam ouvir melhor, especialmente em ambientes barulhentos como restaurantes e bares. Lutar contra a tecnologia é tolice.