A gestação e o nascimento de um filho são tempos de expectativas, uma atrás da outra. Será que estou grávida? O primeiro ultrassom, estará tudo bem? Serão gêmeos? Qual será o sexo? Será que vai nascer antes da hora? E além de todas essas e outras mais, vem a principal: “Será que vai nascer com saúde?”.

Após o pré-natal e o parto, é hora de exames, dentre eles, o teste da orelhinha (ou otoemissões acústicas). Esse é um teste feito com um pequeno microfone colocado no conduto auditivo externo para captar alguns sons muito baixos que vêm lá de dentro e recebem o nome de otoemissões acústicas. Quando é possível captá-las dizemos que elas estão presentes, sendo esse um sinal muito forte de que audição deve ser normal. Quando o teste da orelhinha é negativo (que significa que otoemissões acústicas estão ausentes ou não foram captadas), as crianças passam a ser consideradas suspeitas de terem surdez. Mas o teste ainda não é conclusivo e o bebê parte para outros exames, como o BERA (ou PEATE). Terminados todos os testes, alguns bebês têm o diagnóstico de surdez confirmado.

A vida do profissional que trabalha com o diagnóstico e tratamento da surdez não é feita só de alegrias. Sei que meus colegas otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos e psicólogos que atuam nessa área vão me entender. Poucas situações em nosso trabalho são tão delicadas e emocionalmente complexas quanto dar aos pais a notícia conclusiva da surdez do seu bebê. De um minuto para o outro, a vida deles dá uma guinada em direção ao que desconhecem completamente. Susto, culpa, medo, negação, tristeza e mesmo raiva são sentimentos comuns e naturais nessa hora. Somos todos em parte dominados pelas emoções. Estranho seria ouvir um diagnóstico desses e responder: “tudo bem, acontece!”.

ACEITANDO O DIAGNÓSTICO

Nem sempre a conclusão do diagnóstico da surdez por parte da equipe médica coincide com a conclusão da família. A partir desse momento podemos dividir os pais em dois grupos. Num primeiro estão aqueles que logo se convencem e aceitam o diagnóstico, confiam na equipe, arregaçam as mangas e partem para fazer tudo o que é necessário, sem perder tempo. Entretanto é comum que, mesmo após uma série de exames e testes para confirmar a perda auditiva, alguns pais continuem achando que a criança ouve, ou que ela é muito pequena e devem esperar um pouco mais, ou mesmo que ela está começando a falar algumas palavras como papai ou mamãe. Para os que se encontram nessa situação, eu ressalto 3 pontos muito importantes:

  1. Médicos e fonoaudiólogos dedicados ao diagnóstico auditivo conhecem a dificuldade de confirmar a surdez no bebê muito novo. Como as reações deles são muitos sutis, todos os exames devem ser montados como peças de um quebra cabeças e mesmo assim, algumas vezes não é mesmo fácil chegar a uma conclusão. Há casos que levam vários meses para fechar o diagnóstico de certeza. Portanto, quando essa confirmação é dada a família, procure pensar que ela foi devidamente comprovada.
  2. O fato da criança produzir sons com a boca ou sílabas repetidas pode ser considerado um bom sinal do seu comportamento e desenvolvimento geral, mas não é comprovação de audição. A fala real pressupõe a articulação de palavras com sentido e usadas nos momentos certos. A reação dos bebês aos sons ou chamados costumam obedecer a um padrão conhecido pelos examinadores eperientes.
  3. A surdez em bebês é atualmente considerada por nós como uma urgência. Essa fase da vida é fundamental para o desenvolvimento da habilidade auditiva e da capacidade do cérebro processar os sons e a linguagem da maneira correta, o que torna premente o restabelecimento do estímulo auditivo o mais rápido possível. Crianças que não aprendem a ouvir e a falar nos primeiros 2-3 anos de vida, dificilmente conseguiram fazê-lo mais adiante com a desenvoltura normal.

Portanto, para o bom desenvolvimento do seu filho, é muito importante que o tempo entre a confirmação do diagnóstico e a aceitação do mesmo por vocês seja o menor possível.

 

AS DÚVIDAS SOBRE O FUTURO DO SEU FILHO

Um aspecto importante quando se descobre a surdez no recém nascido ou na criança muito pequena são as preocupações sobre a sua vida futura , se isso pode limitar sua possibilidade de ser bem sucedida na escola, no trabalho e nos relacionamentos. São questões que, por falta de tempo ou pelo foco exagerado nos exames complementares, podem acabar ficando de fora da consulta, mas não deveriam. Afinal, a possibilidade de uma pessoa se desenvolver bem e integrada à sociedade é a razão principal de qualquer tentativa de reabilitação auditiva. Os níveis e tipos de perda auditiva são variados entre os pacientes e os métodos de reabilitação devem ser individualizados. Assim, excluindo os casos em que hajam outros problemas além da surdez, as crianças podem ter todas as possibilidades abaixo:

  • Crianças reabilitadas bem cedo, até 12 ou 18 meses de vida, podem desenvolver a fala e a linguagem no tempo normal ou com o mínimo de atraso em relação às crianças ouvintes.
  • A indicação correta de aparelhos auditivos ou do implante coclear, associados à terapia de estimulação fonoaudiológica, podem permitir que as crianças frequentem as escolas normais, acompanhando todas as aulas e demais atividades em grupos valendo-se normalmente da audição e da fala.
  • Adolescentes e adultos que nasceram surdos e foram reabilitados são pessoas integradas à sociedade e seus canais habituais de comunicação (rádio, TV, telefone, etc), sem dependerem de intérpretes, escolas especiais ou de familiares para cuidarem de si mesmos.

 

O TRATAMENTO

Antes de falar dos métodos de reabilitação, vale uma breve explicação sobre o conceito do termo tratamento. Tratamento é o conjunto de meios usados para curar ou aliviar os sintomas de uma determinada doença. Assim, nunca podemos dizer que uma doença para a qual não se conheça a cura, não tenha tratamento. A hipertensão arterial, a diabetes, o aumento do colesterol ou os problemas da tireoide, são doenças comuns e tratadas cada uma a sua maneira, o que não quer dizer que são curáveis, assim como muitos casos de surdez. Enquanto não tivermos a chance de curar a surdez – é bem possível que dentro de 10 ou 20 anos isso será possível para alguns casos (veja aqui 1 e 2) – devemos tratá-la com as melhores ferramentas possíveis, melhorando a qualidade da interação dos pacientes com nosso meio tão repleto de sons e fala.

Bebês nascidos com surdez ou que perderam a audição antes de aprenderem a falar, poderão se beneficiar das seguintes modalidades de tratamento:

  • Aparelhos Auditivos (Aparelhos de Amplificação Sonora Individuais – AASI)

Os AASI são o método mais conhecido e consagrado para tratamento das perdas auditivas que não são profundas. (A surdez é classificada em níveis: leve, moderada, severa e profunda). Quando há diminuição da audição, mas o paciente consegue ouvir e entender a fala aumentando-se o volume, os AASI são indicados com esse fim. Os aparelhos modernos se valem de tecnologia digital que permite controle das faixas de frequências que se deseja amplificar, além de filtros de ruídos desconfortáveis e a possibilidade de conexão sem fio com telefones celulares, TV, e outras fontes. Atualmente, muitas marcas também oferecem acessórios que facilitam aos usuários de AASI a ouvirem melhor em salas de aula, de reunião, etc.

  • Implantes Cocleares (Ouvido Biônico – IC)

O implante coclear é indicado nos casos de perda auditiva sensorioneural severa à profunda, quando estamos convencidos de que o nível de amplificação possível com os AASI não é suficiente. Nesses casos, mesmo que a amplificação possa trazer alguma sensação auditiva, esses estímulo são de má qualidade ou fracos demais para que sejam úteis para compreensão da fala. A indicação do IC segue critérios diagnósticos rigorosos (para informaçõs detalhadas sobre todo o processo consulte o GUIA do IC) e deve ser feita por uma equipe multidisciplinar experiente. O IC é um dos maiores feitos da tecnologia na saúde, devolvendo a possibilidade de ouvir (mesmo que não com a qualidade auditiva natural) a pessoas antes condenadas a conviver com a surdez e suas limitações.

  • Terapia Fonoaudiológica Especializada

Os AASI e o IC são tecnologias que visam recuperar ao máximo o estímulos auditivos perdidos, entretanto não resolvem todo o problema sozinhos. Crianças que conviveram com a ausência de sons e fala por algum tempo e voltam a ouvir fazendo uso de alguma tecnologia devem ser acompanhados, estimulados e treinados de diferentes maneiras. Esse trabalho é efetuado de por fonoaudiólogos dedicados a reabilitação auditiva e é fundamental para o sucesso do tratamento.

CONCLUSÃO

As últimas duas décadas foram de avanços fantásticos na abordagem da surdez, especialmente em recém nascidos. Em grande parte isso se deveu à invenção do implante coclear, que fez da audição o único sentido humano passível de ser restaurado bionicamente. Com ele, o tempo dos diagnósticos fatalistas do tipo “não há o que fazer” ou de imaginar seu filho surdo como alguém que não poderá se comunicar através da fala e da audição ficaram para trás. Sob a ótica da medicina atual, um número muito pequeno dos pacientes com deficiência auditiva pode precisar da língua de sinais, e para estes ela presta uma grande ajuda. A abordagem da surdez mudou de era, saindo da “educação especial para surdos” e chegando à moderna reabilitação auditiva, na qual os pacientes antes sujeitos ao isolamento decorrente da surdez conquistaram o direito de ouvirem e falarem com qualidade e assim integrarem de forma efetiva a sociedade e contribuir para ela.

Luciano Moreira – Otorrinolaringologia